EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 13 de julho de 2014

Pelo Malo



Complexo e Eficiente

É impossível falar de Pelo Malo (Venezuela, 2013), sem lembrar de Tomboy¹ (França, 2011) haja vista tratarem ambos os filmes, com imenso destemor, sobre a homossexualidade em meio a infância. O segundo título, para tanto, se valia de uma delicadeza ímpar, abordando o tema com o zelo que os personagens e a história exigiam, ao passo que o longa-metragem venezuelano expõe-se e arrisca-se mais pelo terreno minado que o assunto representa na medida em que por vezes opta por não ser tão sutil, ainda que isso não implique num tratamento agressivo da questão.
Neste sentido, a obra da diretora Mariana Rondón contextualiza a identidade sexual do personagem principal que de todas as formas tenta alisar os próprios cabelos consoante dois planos, quais sejam:
- um micro representado pelo ambiente familiar e a dualidade entre a educação opressora da mãe que sufoca a personalidade do filho e a toada condescendente da avó da criança perante os anseios desta,
- um macro configurado através de uma sociedade homofóbica e machista que inevitavelmente conduz a forma de agir e pensar da mãe do garoto.

Dito isso, há quem compreenda que esse modelo estereotipado de pensamento vindo da ruas, dividido entre macho e fêmea e seus respectivos padrões de comportamento podem ensejar avaliações errôneas sobre os seres humanos - conforme recentemente mostrado, aliás, na comédia francesa Eu, Mamãe e os Garotos (França, 2013) - hipótese essa em que a homossexualidade do protagonista poderia ser descartada, sendo seu comportamento, portanto, apenas uma forma de exteriorização do sonho de  ter uma vida melhor, daí pulularem na obra citações sobre as parcas condições sociais e econômicas de um povo ainda hipnotizado pela figura de Hugo Chávez, não obstante a falência do Estado manifestada em áreas como saúde e moradia.
Todas essas ramificações vão num crescendo se agregando, garantindo para a produção apelo e contundência diversos ao caminho que parecia inicialmente pretender trilhar. Graças as possibilidades que vão paulatinamente sendo exploradas, Pelo Malo deixa de ser apenas outro drama social, tornando-se bem mais complexo e rico ou, conforme as palavras de Ricardo Calil:
À primeira vista, ‘Pelo Malo’ parece mais um drama realista sobre o cotidiano de um país pobre visto pelo olhar de uma criança. Quase um genérico que poderia ter sido feito no Irã ou no Brasil.
Mas que, nesse caso, enfoca a vida em um cortiço de Caracas, na Venezuela.
Não demora muito, porém, para que o filme mostre o que tem de particular: o grande oponente do protagonista [...] será menos a pobreza do que a cultura do macho [...].
Terceiro longa-metragem de Mariana Rondón, ‘Pelo Malo’ revela-se bem mais interessante em seu final do que em seu começo. Ao iluminar um protagonista tão específico, termina por revelar muito sobre onde foi realizado”².
Destarte, ao espectador cabe escolher o caminho pelo qual prefere compreender a obra: se tão somente um trabalho sobre distinção de sexualidade e preconceito, se uma obra de cunho principalmente social ou se ambas as coisas. Seja qual for a alternativa, na trilha aberta por Mariana Rondón todos os pontos se cruzam independentemente do viés interpretativo tomado por quem assiste seu filme. Complexo e eficiente, portanto.
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1.Leia mais sobre Tomboy em: http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/09/tomboy.html.
2.FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1360942-critica-cultura-machista-da-venezuela-e-revelada-no-filme-pelo-malo.shtml Acesso em 10.07.14.

FICHA TÉCNICA 

Direção e Roteiro: Mariana Rondón
Produção e Edição: Marite Ugas
Elenco: Samantha Castillo, Samuel Lange Zambrano, Nelly Ramos, Beto Benites
Estreia Brasil: 17.04.2014
Duração: 93min. 

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