EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Divinas Divas



Brilho e Ocaso
Com Divinas Divas (Brasil, 2016) Leandra Leal faz sua estreia na cadeira de direção, trabalho esse no qual opta por transitar, de maneira inteligente, por uma zona de segurança, na medida em que aborda um assunto que lhe é deveras familiar: a realização de espetáculos estrelados por travestis no palco do Teatro Rival, espaço artístico aberto por seu avô ainda em 1934 e já há alguns anos administrado pela atriz e agora cineasta.
Esse ‘conhecimento de causa’, cabe salientar, não torna a tarefa narrativa de Leal mais simples, pois, em tendo o filme oito personagens principais, surge a necessidade de tratar com igualdade as histórias de cada figura retratada, tarefa essa cumprida com louvor pelo documentário que, desta feita, não incorre no erro de privilegiar uma pessoa – o que poderia facilmente ocorrer em torno de Rogéria – em detrimento de outra(s).
Divinas Divas realiza uma carinhosa análise sobre a trajetória da primeira geração de artistas travestis do país, no que se inclui uma breve menção ao período da ditadura militar, época sui generis em que, apesar de toda repressão e limitação de direitos fundamentais, conforme avalia Vitor Búrigo, “travestis eram reconhecidas e respeitadas como artistas, dividiam os holofotes com personalidades e eram capas de revistas”¹ denotando, assim, como, apesar dos pesares, “um dia já fomos mais alegres e menos intolerantes”².
Com efeito, a produção não se limita a olhar para trás e se volta também para o presente, ocasião em que trata com extrema delicadeza a questão do envelhecimento e ocaso de artistas para quem as luzes já não brilham como antes. Destarte, Leandra Leal cria uma obra poética, sensível e respeitosa, digna dos aplausos recebidos e que deixa desperto o interesse e a ansiedade pelas próximas empreitadas da mesma na direção de longas-metragens, afinal, não é todo dia que se testemunha estreias tão bem-sucedidas como essa.
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1.     Revista Preview. Ano 8. ed. 93. São Paulo: Sampa, Junho de 2017.  p. 10.

FICHA TÉCNICA

Direção: Leandra Leal
Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo, Natara Ney
Produção: Carol Benjamin, Leandra Leal, Natara Ney, Rita Toledo
Fotografia: David Pacheco
Montagem: Natara Ney
Duração: 110 min.
Estreia: 22/06/2017 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes

quarta-feira, 19 de julho de 2017

D.P.A – O Filme



Migração Pífia

D.P.A – O Filme (Brasil, 2017) apresenta exatamente os mesmos problemas de sua versão televisiva: direção de elenco frouxa, roteiro simplório e de soluções fáceis - quando não forçadas - humor que não convence, personagens rasos como um pires e narrativa carente de um ritmo capaz de envolver qualquer espectador acima dos 11 anos de idade.

Nesta toada, a repetição de tais erros ocorre agora em uma escala maior na medida em que o orçamento da produção cinematográfica é visivelmente superior ao do seriado, o que permite a inserção de muitos efeitos visuais e, algo inexistente no seriado, tomadas externas que incluem até, pasmem, a utilização de um submarino no litoral carioca. Tais novidades, contudo, de pouco valor se mostram graças a um script exagerada e desnecessariamente influenciado por Harry Potter e que, de quebra, relega a um plano insignificante determinados personagens originais da TV em prol da aparição de outras figuras, deveras esquecíveis, vividas por estrelas globais cuja presença, pelo visto, tem por intuito tornar o produto atraente para quem nunca assistiu um episódio da série.
Dentro deste contexto, até mesmo a principal, ainda que pouco original, sacada do roteiro se revela subaproveitada, qual seja a junção em cena das duas gerações de detetives do prédio azul¹, haja vista que a motivação para o encontro é tão pífia como a inclusão do tal submarino na trama. Saudade de Lucas Silva e Silva e seu Mundo da Lua².
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1.     O artifício do encontro de gerações distintas já fora visto, por exemplo, nas franquias X-Men e Star Trek.
2.     Seriado brasileiro de 52 episódios produzido e exibido pela TV Cultura. Exibido originalmente entre 06.10.1991 e 27.09.1992.

Ficha Técnica 

Direção: André Pellenz
Roteiro: Flávia Lins, L.G. Bayão
Elenco: Suely Franco, Otávio Müller, Mariana Ximenes, Maria Clara Gueirros, Anderson Lima, Pedro Henriques Motta, Ailton Graça, Caio Manhente, Carol Futuro, Cauê Campos, George Sauna, Letícia Braga, Letícia Pedro, Luciano Quirino, Miriam Freeland, Ronaldo Reis, Tamara Taxman
Estreia no Brasil: 13.07.2017
Duração: 95 min.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Uma Família de Dois



Crossover de Clichês

Uma Família de Dois (França, 2017) não almeja em momento algum ser original e, assim, se apropria sem qualquer traço de vergonha, de elementos narrativos clichês vistos em obras como Três Solteirões e um Bebê (EUA, 1987) e À Procura da Felicidade (EUA, 2006). Para ser mais exato o longa-metragem configura uma espécie de cruzamento, com pitadas cômicas, de Kramer vs. Kramer (EUA, 1979) com o nacional Pequeno Segredo (2015), não fazendo, desta feita, o menor esforço para evitar a previsibilidade.
Em sua porção comédia o filme não funciona uma vez que banaliza a realidade dos personagens tornando-a insuportavelmente feliz e desprovida de problematizações tal qual um comercial de margarina – circunstância essa, aliás, assumida de maneira expressa pelo roteiro que em certa ocasião insere o protagonista, um dublê cinematográfico, em um diálogo sobre a dificuldade de manter um relacionamento amoroso enquanto pai solteiro, fala essa que logo se revela uma encenação para as câmeras feita em um momento de trabalho, ou seja, num ambiente tão fake quanto a pretensa alegria absoluta mostrada no cotidiano mantido entre aquele e a filha.
Já em sua faceta dramática Uma Família de Dois igualmente tropeça seja porque a transição feita entre o início de tal gênero e o fim da toada humorística não é trabalhada satisfatoriamente seja porque, como já dito, os artifícios da narrativa utilizados para tanto incomodam dada a similitude para com tantos outros novelões já filmados. Neste sentido, na tentativa de evitar que tal viés dramático resultasse insuportável a produção se vale de Omar Sy que, apesar de ótimo como de praxe, não é milagreiro a ponto de salvar um trabalho prejudicado desde sua concepção graças a um roteiro preguiçoso e piegas que ainda tenta já próximo ao término aplicar um plot twist cujo efeito é nulo porque amparado por mais uma ideia repetida.
A propósito, o título é um remake de Não Aceitamos Devoluções (México, 2013), informação essa, convenhamos, de pouca relevância já que a obra há de ser escrutinada de forma autônoma e não sob a sombra de eventuais qualidades ou defeitos daquela que oficialmente lhe inspirara.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Demain Tout Commence
Direção: Hugo Gélin
Roteiro: Eugenio Derbez, Hugo Gélin, Jean-André Yerles, Leticia López Margalli, Mathieu Oullion
Elenco: Alice David, Anabel Lopez, Anna Cottis, Antoine Bertrand, Antoine Gouy, Ashley Walters, Ben Homewood, Cécile Cassel, Clémence Poésy, Clémentine Célarié, David Lowe, Deepak Anand, Elaine Caulfield, Ginnie Watson, Gloria Colston, Guillaume Bouchède, Howard Crossley, Mona Walravens, Natacha Andrews, Noémie Kocher, Omar Sy, Raphael von Blumenthal, Raquel Cassidy
Produção: Philippe Rousselet, Stéphane Célérier
Fotografia: Nicolas Massart
Montador: Grégoire Sivan, Valentin Feron
Trilha Sonora: Rob Simonsen
Estreia: 06/07/2017 (Brasil)
Duração: 118 min.