EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 1 de junho de 2012

Branca de Neve e o Caçador

                                      Traições que Vem Para o Bem

              No que tange o complexo trabalho de adaptação que o cinema exerce sobre obras literárias, Sérgio Rizzo opina:

                            “É preciso encontrar uma forma de equivalência que provoque no 
                             espectador uma sensação parecida a que o trecho do livro provocou 
                             no leitor, mas com o uso de imagens e de sons. Esse processo de
                             distanciamento do original, que alguns consideram traição, pode gerar, 
                             no fim, o modo mais nobre de fidelidade em uma adaptação: aquela que 
                             aproxima o espírito da transposição ao do original. [...]
                             [O filme, portanto, deve procurar] fazer justiça à essência do original 
                             sem transformar-se em escravo de sua estrutura. Traduzir bem [...]
                             envolve uma certa 
                             (e habilidosa) 
                             capacidade de 
                             trair”¹.

              Dentro deste contexto, uma vez que a versão mais tradicional e atualmente conhecida da história da Branca de Neve é representada pela animação comandada por Walt Disney em 1937, Branca de Neve e o Caçador (EUA, 2012) representa um curioso caso de produção que se afasta do parente cinematográfico mais próximo para, em contrapartida, se aproximar do tom sombrio originalmente pretendido pelos irmãos Grimm², opção essa que, por sua vez, não impede que consideráveis mudanças ao texto de origem sejam apresentadas como forma de imprimir personalidade própria a uma adaptação contemporânea que surpreende pela facilidade com que reúne a atenção e a emoção de um público que há muito já conhece o início, o meio e o fim da jornada da princesa órfã.
             Ok, não é possível ignorar que o roteiro deste novo título possui falhas que se confundem com o descompasso não raro mostrado por sua edição. São problemas visíveis, mas que, ainda assim, não retiram o charme de um trabalho impecável no que atine seus figurinos, direção de arte e de fotografia – elementos esses que juntos dão ao filme uma roupagem épica ao modo O Senhor dos Aneis. Por certo, tais escorregões não são suficientes para condenar o longa-metragem porque nítido é que determinadas passagens da trama foram mexidas não apenas para tornar diferente a versão mas também para atribuir densidade psicológica a personagens³ defendidos por um elenco azeitado, afinal: Charlize Theron, linda como de costume, exerce a vilania em modo turbo, Kristen Stewart, ótima, compõe uma nada delicada princesa e, por fim, um time de nomes consagrados do cinema inglês, como Bob Hoskins e Brian Gleeson, dão vida aos, agora, oito anões.
             Há traições que vem para o bem.
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1. Literatura & Cinema. In. Revista Língua Especial. Cinema & Linguagem. São Paulo: Segmento. Outubro de 2011. P. 10 e 14.
2. “Walt Disney amenizou o conto original, que é sombrio e tem lances bizarros, como a madrasta que assa e come o coração de veado pensando ser o da princesa; e a maçã envenenada que pula da boca de Branca depois de um tropeço dos serviçais que levavamo esquife de vidro para o castelo. Que beijoca de príncipe que nada” (FONTE: Revista Preview. ed. 32. São Paulo: Sampa, Maio de 2012. p.36).
3. Qualidade que, por exemplo, passou longe do horroroso A Garota da Capa Vermelha (EUA, 2011).


Ficha Técnica
Título Original: Snow White and the Huntsman
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Evan Daughterty, Florence Welch, Hossein Amini, John Lee Hancock
Produção: Gloria S. Borders, Joe Roth, Laurie Boccaccio, Palak Patel, Sam Mercer, Sarah Bradshaw
Elenco: Izzy Meikle-Small (Young Ravenna)Johnny Harris (Quert)Rachael Stirling (Anna)Ray Winstone (Trajan) Hattie Gotobed (Lily)Duncan JC Mais (The Shadow)Christian Wolf-La'Moy (Ravennas Archer)Xavier Atkins (Young Prince William)Liberty Ross (Queen Eleanor)Christopher Obi (Mirror Man) Mark Wingett (Tom The Rebel)Karen Anderson (X) (Dwarf)Craig Garner (Dwarf) Kristen Stewart (Branca de Neve)Nick Frost (Tiberius)Ian McShane (Caesar)Sarah Molkenthin (Peasant) Sam Claflin (Príncipe Charmant)Chris Hemsworth (Caçador)Charlize Theron (Rainha Má)Dave Legeno (Broch)Vincent Regan (Duke Hammond)Eddie Marsan (Hadrian)Noah Huntley (King Magnus)Joey Ansah (Aldan)Jamie Blackley (Iain)Lily Cole (Greta)Toby Jones (Claudius)Annabelle Wallis (Sara)Sam Spruell (Finn)Brian Gleeson (Gus)Bob Hoskins (Constantine)
Estreia Mundial/Brasil: 01.06.2012
Duração: 120 min.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin

                         Bode Expiatório

               Independentemente da toada que marque sua fonte literária de origem, sutileza, por certo, não é uma característica existente em Precisamos Falar Sobre o Kevin (Reino Unido, 2011); neste sentido, personagens são deliberadamente trabalhados para convencer o espectador acerca de impressões pré-concebidas, daí porque a este último são apresentadas figuras como o pai bobalhão e alienado ao que passa ao seu redor, o filho que desde muito cedo demonstra uma personalidade monstruosa e a mãe que aflita com o novo mundo descortinado pela maternidade não esconde nem mesmo do rebento certos acessos de desespero e fúria.
              Com efeito, é justamente por demonstrar uma humanidade que se choca com o comportamento idealizado e esperado de um pai e/ou de uma mãe que aquela mulher vai gradativamente sendo feita de bode expiatório seja pelos demais personagens que a cercam seja pelo próprio diretor Lynne Ramsay que não titubeia ao, através do uso de metáforas nada singelas, sujar de maneira insistente as mãos daquela mãe com a cor vermelha da morte, da humilhação, do julgamento.
              Sobre a necessidade humana de atribuir sentido a tudo, o que inclui a distribuição de culpa, Diogo Schelp discorre:

                                              “A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada [...] nas 
                          costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente é uma 
                          prática que alguns estudiosos a consideram essencial para entender a vida 
                          em sociedade.
                          [...] cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e
                          por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros [...] Junte-se a isso a  
                          necessidade intrinsecamente humana de tentar encontrar um sentido, uma 
                          ordem no caos do mundo, e têm-se os elementos exatos para aceitarmos a 
                          primeira e a mais simples explicação que aparecer para os males a nos 
                          afligir. Desde muito cedo, provavelmente com o surgimento das primeiras 
                          crenças religiosas, a humanidade desenvolveu rituais para transferir a culpa
                          para pessoas, animais ou objetos como uma forma de purificação e 
                          recomeço. [...]
                                                 [...] a dificuldade de conciliar os desejos de todos cria tensões e violência. 
                          Para que a ordem social não imploda em atos de vingança, existem os 
                          rituais de sacrifício, em que os impulsos destrutivos são canalizados para 
                          um bode expiatório [...] Segundo René Girard [autor da teoria do desejo 
                          mimético], no momento em que o ser humano se conscientiza de que o 
                          bode expiatório nada mais é do que uma vítima inocente, seu sacrifício 
                          deixa de fazer sentido”¹.

              Dentro deste contexto, não há dúvida de que em meio a tamanha repreensão soma-se uma considerável dose de culpa que a própria mãe se atribui, afinal sua autoanálise suplanta a fase dos questionamentos vagos para, assim, detectar as falhas cometidas ao longo da criação do primogênito. Ocorre que, em não se tratando de um filme sutil, pouco espaço sobra para qualquer opinião própria do público, já que nítida se revela a forma como a obra se esmera em apedrejar sua protagonista² e ignorar, por conseguinte, qualquer noção de livre-arbítrio relacionada ao filho assassino.
             Tilda Swinton, ressalte-se, se dedica com o afinco de costume para aplicar camadas extras a uma mulher consumida pela culpa. Graças ao talento dela e da revelação Ezra Miller é possível identificar o único instante em aberto do longa-metragem, qual seja aquele em que perguntado pela genitora sobre o porquê de seus atos bárbaros, o agora presidiário Kevin responde já não ter mais como antes tanta certeza dos motivos. Eis o momento em que, ao contrário do que a produção tentara convencer ao longo de seu desenvolvimento, nem tudo na vida possui uma explicação hermética nem toda culpa possui um endereço certo.
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1.FONTE: A Arte de Culpar os Outros. In.: Revista Veja. Ed. 2269. Ano 45. São Paulo: Abril, 16.05. 2012. p.113-5.
 
2.Como se toda mãe que não conseguisse de imediato se conectar emocionalmente com a gravidez/maternidade tivesse de ser condenada a parir um anticristo.


Ficha Técnica
Título Original: We Need to Talk About Kevin
Direção:Lynne Ramsay                         

Roteiro:Lionel Shriver, Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Produção:Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno
Elenco:Ezra Miller (Kevin)Paul Diomede (Al)Joseph Melendez (Waiter) John C. Reilly (Franklin)Tilda Swinton (Eva)Siobhan Fallon (Wanda)Ashley Gerasimovich (Celia)Lauren Fox (Dr. Goldblatt)James Chen (Dr. Foulkes) Alex Manette (Colin)Erin Maya Darke (Rose)
Estreia no Brasil: 27.01.2012                 Estreia Mundial: 21.10.2011
Duração: 110 min.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Plano de Fuga

                     Fast Food

              Ser comumente comparado ao ótimo O Troco (EUA, 1999) é um indicativo de peso sobre as pretensões de Plano de Fuga (EUA, 2011). Estética suja, fotografia saturada (como forma de exaltar o calor mexicano), humor negro e violência a rodo são os ingredientes desta aventura que concilia o cinismo das últimas décadas com a faceta despudorada e nada careta de produções oitentistas estreladas pelos astros brucutus de então.
             É de se lamentar, portanto, que em terreno americano Mel Gibson não goze mais de privilégio suficiente para sozinho garantir o sucesso comercial de um filme; afinal, graças a influência dos deslizes cometidos pelo ator em sua vida pessoal, Plano de Fuga não fora sequer lançado nas salas de projeção yankees, o que, vale frisar, em nada assemelha a qualidade deste título com a de outros também arremessados diretamente no mercado de home-video e protagonizados por celebridades de outrora do cinema de ação como Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme.
             Diferentemente desses ‘artistas’, Mel Gibson possui uma dose superior de talento a disposição seja do drama - conforme atestam as obras por ele dirigidas, bem como seu desempenho em Um Novo Despertar (EUA, 2011) - seja da comédia - basta lembrar os momentos divididos com Danny Glover e Joe Pesci na franquia Máquina Mortífera -, seja da aventura - não a toa Mad Max (Austrália, 1979) catapultou-o ao sucesso -, daí porque o carisma do ator não permite que sua participação neste novo trabalho seja eclipsada pelas boas cenas de perseguição e tiroteio arquitetadas pelo diretor Adrian Grunberg.
             Por certo, Plano de Fuga não mudará a vida de ninguém, podendo até, talvez, ser facilmente esquecido por quem o assistir, mas, ainda assim, em seus noventa minutos de duração a diversão restará garantida a quem não quiser se debruçar, por exemplo, sobre problemas como o olhar preconceituoso do norte-americano sobre seu vizinho mexicano. Taí um caso em que cérebro e estômago pedem para ser desconectados em proveito de uma autêntica fast food.                                                                               
Ficha Técnica                                                                                               
Título Original: Get the Gringo
Direção:Adrian Grunberg                 Produção:Bruce Davey, Stacy Perskie
Roteiro:Adrian Grunberg, Mel Gibson, Stacy Perskie
Elenco:Mel Gibson, Roberto Sosa (Carnal)Fernando Becerril (Prison Director) Tenoch Huerta (Carlos) Dean Norris (Bill)Bob Gunton (Mr. Kaufmann)Dolores Heredia (The Kid's Mom)Tom Schanley (Gregor)Jesús Ochoa (Caracas) Daniel Giménez Cacho (Javi) Peter Stormare (Frank)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia no Brasil: 18.05.2012           Estreia Mundial: 26.08.2011
Duração: 95 min.