EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Olhar Instigado



Compreensão Direcionada

Embora se chame Olhar Instigado (Brasil, 2017) o filme de Chico Gomes e Felipe Lion não faz jus ao título na medida em que apresenta equívocos graves que comprometem, sobretudo, a pretendida provocação do espectador quanto a sua compreensão sobre a arte urbana, senão vejamos:

Preliminarmente, a produção peca no recorte escolhido, ao passo em que elege três protagonistas cujas falas por vezes são desinteressantes e até desarticuladas, aspecto esse em que não cabe especular sobre eventual desnível intelectual entre os mesmos, haja vista que as muitas gírias e conclusões vagas proferidas não são exclusividades desse ou daquele personagem, sendo, ao contrário, comuns a todos.
Destarte, seria, então, possível ser menos criterioso com as figuras abordadas e imaginar que o tratamento cinematográfico a elas dado almeja que se expressem nem tanto por meio de suas palavras, mas, principalmente, através de suas obras? A resposta é negativa considerando-se, dentro desse contexto, outra problemática do recorte: a ausência de valor de algumas das criações e intervenções mostradas.
Tal constatação, cabe ponderar, não se aplica a Alexandre Orion que consegue sim se comunicar com êxito por intermédio de seus trabalhos - que, aliás, poderiam facilmente render outro documentário dedicado somente a eles - no que se incluem seu incrível mural Apreensão, bem como Ossário, sua intervenção em túneis paulistanos que chama atenção pela beleza, modus operandi e significado.
Já quanto aos demais entrevistados o caldo entorna. Explique-se:
a) Olhar Instigado acompanha, não raro de maneira enfadonha, o processo de criação de uma obra de arte interativa que ao fim lamentavelmente fracassa em seus objetivos, conclusão que resulta tão frustrante para seu respectivo criador, Pato, quanto para o espectador que sente, assim, ter perdido tempo com algo ineficaz, viés esse em que o longa-metragem há de ter sua responsabilidade atenuada, uma vez que o risco de ser insatisfatório o resultado final da experiência registrada é comum a qualquer documentário que, na medida do possível, se exime de intervir na realidade filmada - tal ressalva, portanto, há de incidir sobre a conclusão do projeto, mas não possui o condão de sanar o erro de ‘casting’ alhures comentado.
b) No que tange a abordagem de um pichador, a discussão a respeito de sua atividade ser encarada como arte não é explícita. O filme, na verdade, assim sugere de maneira velada ao passo em que dá voz aos pichadores que defendem a intervenção em muros alheios como forma de demarcarem sua presença na cidade e, em especial, em locais que, segundo seu julgamento, não são mais tratados como coisa pública. Nesse diapasão, o erro imperdoável reside não no fato do filme hastear tal bandeira e sim na opção de não ouvir também o outro lado: proprietários de imóveis cujas paredes foram pichadas. A opinião externa, desta feita, é tomada apenas quando conveniente, vide o caso de uma dona de casa que manifesta o quanto a vista de seu quintal foi embelezada pelo painel Apreensão, o que, há de se convir, demonstra um método maniqueísta de propagar um ponto de vista (equívoco, cabe lembrar, também percebido, a despeito de seus inegáveis méritos, no elogiado Era o Hotel Cambridge).
Nesta toada, a vontade de convencer a plateia quanto aos argumentos do pichador é tão latente que a produção perde a oportunidade de ouro de explorar a fundo a dubiedade presente no fato de tal figura, ressalte-se, ser também um pintor profissional de edifícios. Ao abrir mão desse rico ponto de análise Gomes e Lion demonstram seu desejo de, no lugar de instigar o olhar do público, direcionar o mesmo por uma trilha previamente firmada, o que configura uma manipulação torpe que tenta a todo custo avalizar e tornar importante para uma comunidade determinadas obras e atividades que, como observado por Alexandre Orion, às vezes podem ser de interesse apenas de seu criador e de uma meia dúzia de amigos que, desta feita, buscam quebrar sua invisibilidade perante a sociedade, ainda que a um custo, no caso do picho, moral e legalmente discutível, lado da moeda esse que Olhar Instigado procura deixar virado para baixo.

FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Chico Gomes, Felipe Lion
Estreia: 09/03/2017
Duração: 70 min.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Divinas Divas



Brilho e Ocaso
Com Divinas Divas (Brasil, 2016) Leandra Leal faz sua estreia na cadeira de direção, trabalho esse no qual opta por transitar, de maneira inteligente, por uma zona de segurança, na medida em que aborda um assunto que lhe é deveras familiar: a realização de espetáculos estrelados por travestis no palco do Teatro Rival, espaço artístico aberto por seu avô ainda em 1934 e já há alguns anos administrado pela atriz e agora cineasta.
Esse ‘conhecimento de causa’, cabe salientar, não torna a tarefa narrativa de Leal mais simples, pois, em tendo o filme oito personagens principais, surge a necessidade de tratar com igualdade as histórias de cada figura retratada, tarefa essa cumprida com louvor pelo documentário que, desta feita, não incorre no erro de privilegiar uma pessoa – o que poderia facilmente ocorrer em torno de Rogéria – em detrimento de outra(s).
Divinas Divas realiza uma carinhosa análise sobre a trajetória da primeira geração de artistas travestis do país, no que se inclui uma breve menção ao período da ditadura militar, época sui generis em que, apesar de toda repressão e limitação de direitos fundamentais, conforme avalia Vitor Búrigo, “travestis eram reconhecidas e respeitadas como artistas, dividiam os holofotes com personalidades e eram capas de revistas”¹ denotando, assim, como, apesar dos pesares, “um dia já fomos mais alegres e menos intolerantes”².
Com efeito, a produção não se limita a olhar para trás e se volta também para o presente, ocasião em que trata com extrema delicadeza a questão do envelhecimento e ocaso de artistas para quem as luzes já não brilham como antes. Destarte, Leandra Leal cria uma obra poética, sensível e respeitosa, digna dos aplausos recebidos e que deixa desperto o interesse e a ansiedade pelas próximas empreitadas da mesma na direção de longas-metragens, afinal, não é todo dia que se testemunha estreias tão bem-sucedidas como essa.
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1.     Revista Preview. Ano 8. ed. 93. São Paulo: Sampa, Junho de 2017.  p. 10.

FICHA TÉCNICA

Direção: Leandra Leal
Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo, Natara Ney
Produção: Carol Benjamin, Leandra Leal, Natara Ney, Rita Toledo
Fotografia: David Pacheco
Montagem: Natara Ney
Duração: 110 min.
Estreia: 22/06/2017 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes

quarta-feira, 19 de julho de 2017

D.P.A – O Filme



Migração Pífia

D.P.A – O Filme (Brasil, 2017) apresenta exatamente os mesmos problemas de sua versão televisiva: direção de elenco frouxa, roteiro simplório e de soluções fáceis - quando não forçadas - humor que não convence, personagens rasos como um pires e narrativa carente de um ritmo capaz de envolver qualquer espectador acima dos 11 anos de idade.

Nesta toada, a repetição de tais erros ocorre agora em uma escala maior na medida em que o orçamento da produção cinematográfica é visivelmente superior ao do seriado, o que permite a inserção de muitos efeitos visuais e, algo inexistente no seriado, tomadas externas que incluem até, pasmem, a utilização de um submarino no litoral carioca. Tais novidades, contudo, de pouco valor se mostram graças a um script exagerada e desnecessariamente influenciado por Harry Potter e que, de quebra, relega a um plano insignificante determinados personagens originais da TV em prol da aparição de outras figuras, deveras esquecíveis, vividas por estrelas globais cuja presença, pelo visto, tem por intuito tornar o produto atraente para quem nunca assistiu um episódio da série.
Dentro deste contexto, até mesmo a principal, ainda que pouco original, sacada do roteiro se revela subaproveitada, qual seja a junção em cena das duas gerações de detetives do prédio azul¹, haja vista que a motivação para o encontro é tão pífia como a inclusão do tal submarino na trama. Saudade de Lucas Silva e Silva e seu Mundo da Lua².
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1.     O artifício do encontro de gerações distintas já fora visto, por exemplo, nas franquias X-Men e Star Trek.
2.     Seriado brasileiro de 52 episódios produzido e exibido pela TV Cultura. Exibido originalmente entre 06.10.1991 e 27.09.1992.

Ficha Técnica 

Direção: André Pellenz
Roteiro: Flávia Lins, L.G. Bayão
Elenco: Suely Franco, Otávio Müller, Mariana Ximenes, Maria Clara Gueirros, Anderson Lima, Pedro Henriques Motta, Ailton Graça, Caio Manhente, Carol Futuro, Cauê Campos, George Sauna, Letícia Braga, Letícia Pedro, Luciano Quirino, Miriam Freeland, Ronaldo Reis, Tamara Taxman
Estreia no Brasil: 13.07.2017
Duração: 95 min.