O Garoto de Liverpool

Retrato Limitado

Quando o primeiro acorde de A Hard Day’s Night é entoado no segundo inicial de O Garoto de Liverpool (Inglaterra, 2010) o entusiasmo de imediato toma conta do espectador que, entretanto, logo percebe ter sido vítima de uma peça, pois, ao contrário do que ocorre na sequência de abertura do filme de título homônimo lançado em 1964, a canção não prossegue e o que se vê não é a corrida dos fab four para se desvencilhar de fãs histéricas, mas sim os passos em disparada de um solitário John Lennon.
Dessa maneira o longa-metragem indica que não pretende falar do grupo mas sim da trajetória específica de Lennon no que tange os traumas que tanto colaboraram para a formação de sua personalidade e de sua produção artística. Neste passo, para quem já acumula conhecimentos sobre a história do mito, O Garoto de Liverpool nada acrescenta, sendo, na verdade, um programa dispensável graças a limitação do olhar da artista plástica agora transformada em cineasta Sam Taylor-Wood.
Explique-se: o tom novelesco com o qual a produção se desenvolve apenas arranha a superfície do que foram os distúrbios familiares encarados pelo cantor/compositor em sua infância e adolescência. Tamanha trivialidade na abordagem, vale ressaltar, se associa a um elemento agravante, qual seja a equivocadíssima seleção de elenco, afinal, a vontade de ousar de Taylor-Wood ao escolher pessoas que em nada se parecem fisicamente com os verdadeiros personagens acaba se revelando um tiro no pé – ao contrário da bem sucedida hipótese de Não Estou Lá que dentre vários intérpretes para Bob Dylan apresentou uma mulher e uma criança negra – eis que os jovens atores contratados entregam atuações por demais caricatas, aspecto esse no qual se destaca negativamente Aaron Johnson que com sua canastrice compõe um John Lennon irritante e mimado, características essas que o artista de fato dispunha mas que também conviviam com toda uma gama de sentimentos complexos como a carência, além de virtudes e/ou defeitos indissociáveis como o sarcasmo.  
Portanto, é essa dualidade de Lennon que O Garoto de Liverpool não consegue alcançar. A impressão que fica é a de que sua diretora se sai melhor no campo das sugestões – vide as menções as ambíguas relações do artista para com sua mãe e para com o parceiro Paul McCartney – do que no aprofundamento psicológico dos seres retratados, o que é lamentável visto que material para tanto não faltara.

COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Nowhere Boy
Direção: Sam Taylor Wood
Elenco: Kristin Scott Thomas (Mimi Smith)Ellie Jeffreys (Teddy Girl)David Threlfall (Uncle George)Daniel Ross (Nigel Whalley)Michael James Johnson (Stan Parks)Sam Bell (George Harrison)Christian Bird (Jimmy Tarbuck)Anne-Marie Duff (Julia Lennon)Jack McElhone (Eric Griffiths)David Morrissey (Bobby Dykins)Thomas Sangster (Paul McCartney)Aaron Johnson (John Lennon)Ophelia Lovibond (Marie Kennedy)Josh Bolt (Pete Shotton)Simon Lowe (Jim Gretty)Calum O'Toole (Teddy Boy)Les Loveday (Teddy)Daniel Solazzo (Teddy Boy)
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 98 minutos
Curiosidade: Sam Taylor-Wood, 43, e Aaron Johnson, 20, conheceram-se trabalhando como diretora e ator em O Garoto de Liverpool. Apaixonaram-se e viraram alvo de escândalo na Inglaterra, por conta da diferença de idade. O casal acaba de ter uma filha” (FONTE: Preview. Edição 13. Ano 2. São Paulo: Sampa, Setembro de 2010. p. 62).

Comentários

  1. Aaron Jonhson não interpreta John Lennon. Ele É John Lennon.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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  2. Concordo que o filme se sá em tom de novela, e que de fato, as interpretaçoes não são, digamos, surpreendentes, no entanto, uma coisa achei interessante no filme: Lennon ser o foco, cativa pois, apesar de não ser um fato novo suas tormentas, foi o primeiro filme ( que conheço) que se ateve a eese ponto

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