EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret/Um Truque de Luz

                                               Primeiro Cinema

                Não seria errado dizer que Um Truque de Luz (Alemanha, 1995) representou por quase duas décadas a mais tocante homenagem já feita ao primeiro cena ou cinema primitivo – como muitos costumavam, de forma deveras equivocada, rotular o período relativo aos primórdios da atividade cinematográfica. Neste sentido, embora inegável o valor artístico do trabalho de Wim Wenders, não há também como discordar que seu cetro fora brilhantemente tomado por Martin Scorcese e seu A Invenção de Hugo Cabret (EUA, 2011), senão vejamos:
               Discorrendo sobre os anos imediatamente anteriores a 1895, quando o cinematógrafo dos irmãos Lumière ainda não havia sido lançado, Wenders transita por uma época de euforia na qual muitos inventores traçavam corridas paralelas rumo a criação de uma máquina capaz de reproduzir imagem em movimento. Retratando um tempo em que todo o cuidado era pouco para evitar que idéias fossem surrupiadas, o cineasta alemão utiliza o formato do mockumentary para, em meio a muitas licenças poéticas, apresentar a trajetória oficialmente pouco exitosa dos irmãos Skladanowsky rumo ao título de criadores do bioscópio (bioskop) e, consequentemente, do cinema.
              Saltando alguns anos, Scorcese traz para o grande público a história do ‘primeiro mago do cinema’ Georges Méliès. Dentro deste contexto, ao invés do formato do falso documentário manejado por Wenders – que assume, assim, o risco de restringir a recepção e compreensão do material ao nicho dos cinéfilos – o ítalo-americano Scorcese opta por mascarar sua grande homenagem ao cinema através de um típico filme para família, o que, longe de ser uma estratégia meramente comercial, revela, sobretudo, a intenção do diretor em propagar sua paixão pela sétima arte apresentando a platéias do novo século tanto obras do gênio Méliès – dentre as quais se destacam trechos de Le Mélomane (França, 1903) e, por óbvio, o clássico Viagem a Lua (França, 1902) – como também de nomes do calibre de Buster Keaton (A General, EUA, 1927), D. W. Griffith (Intolerância, EUA, 1916), Robert Wiene (O Gabinete do Dr. Caligari, Alemanha, 1920), Georg W. Pabst (A Caixa de Pandora, Alemanha, 1929), Edwin s. Porter (O Grande Roubo do Trem, EUA, 1903) e Harold Loyd (O Homem Mosca, EUA, 1923).
              Graças a uma notável capacidade de condensação e a um roteiro que não deixa qualquer ponta solta, Scorcese não só relata a ascensão e queda de Méliès enquanto cineasta, como ainda ministra aulas sobre a técnica do artista francês seja quanto a coloração de seus negativos, seja quanto as trucagens feitas, durante a montagem, para obtenção de efeitos visuais. É uma história, portanto, que parte de um prisma individual, mas que serve de tributo a todos os artesãos e mágicos que colaboraram na construção dessa arte, objetivo esse de igual forma compartilhado por Wenders que ao término de seu trabalho o dedica “aos muitos pioneiros esquecidos do cinema”.
             Um Truque de Luz e A Invenção de Hugo Cabret ilustram a metamorfose experimentada pelo cinema quando passara de “simples” registro documental de cenas do cotidiano – como faziam os Lumière – ou de atrações de vaudeville – registradas pelos irmãos Skladanowsky – para o patamar de arte do espetáculo e do entretenimento, transição essa, vale dizer, difundida por Méliès a partir da junção entre sua experiência enquanto ilusionista e a tecnologia do cinematógrafo.
              Em termos parecidos, Edgar Morin explica:
                                     “para compreender o cinema, há que se seguir a passagem do
                                      cinematógrafo ao cinema [...].
                                     Como se opera o nascimento do cinema? Há um nome que permite
                                     cristalizar toda a mutação: o de Méliès [...].
                                     [...] ao inventar a mise-en-scène de cinema, Méliès mais 

                                     profundamente embrenhou o filme numa via teatral espetacular. 
                                     [...] As duas faces da revolução operada por Méliès são a trucagem
                                     e o fantástico. [...] da mais realista das máquinas, imediatamente
                                     surge o fantástico: a irrealidade de Méliès é tão flagrante quanto a 
                                     realidade dos irmãos Lumière o foi.
                                     [...] a brusca aparição do fantástico faz com que se revele a magia

                                     que se esconde por detrás do encanto da imagem.
                                     [...] Todos os truques de prestidigitação de Méliès se enraízam, com
                                     efeito, em técnicas-chave da arte do filme [...].
                                     [...] Se original e essencialmente o cinematógrafo Lumiére é 
                                     desdobramento, o cinema Méliès, original e essencialmente é 
                                     metamorfose”².
                Isto posto, é justamente em razão dessa distinção histórica de métodos que Um Truque de Luz pode até parecer simples perante a suntuosidade plástica³ de Hugo e seu, afiado, elenco de estrelas. Todavia, Hugo Cabret e Um Truque de Luz não poderiam mesmo ter formas parecidas, eis que os dois são fielmente comprometidos com a faceta estético-histórica abordada pelos roteiros. Ambos, de qualquer forma, são experiências obrigatórias, embora Hugo acabe manifestando certa dose de superioridade em virtude de ser uma homenagem bem mais minuciosa, abrangente e acessível de um diretor que satisfazendo a si próprio com o rumo metalingüístico dado a produção, não esquece, ao mesmo tempo, de manter a coesão do lado ‘família’ do longa-metragem, preenchendo-o, desta feita, com princípios e valores, mas sem resvalar na toada melodramática e piegas rotineiramente perseguida, por exemplo, por Steven Spielberg, daí porque correta está Mariane Morisawa ao escrever que Scorcese consegue: “transformar o material em algo pessoal e universal ao mesmo tempo”⁴.
               
                Dito isso, não seria nada mal, agora, que Brian De Palma, inspirado por Scorcese, aproveitasse para estender uma homenagem de outrora e realizasse um filme tributo para S. M. Eisenstein. Quem sabe um dia...
___________________________
1.É no mínimo curiosa a tradução brasileira para o título original deste novo trabalho de Scorcese, tendo em vista que, ao invés de inventar, Hugo não tarda a revelar que seu propósito de vida é consertar objetos e corações avariados. Ato contínuo, a pessoa responsável no contexto do filme por qualquer invenção é Méliès, seja no que tange o autômato encontrado pelo pai de Cabret, seja no que diz respeito as trucagens que estabeleceram uma nova linguagem para o cinema.
2 O Cinema e o Homem Imaginário. p. 51-6.
3 Some-se a isso uma refinada trilha musical, além de uma virtuosa direção de fotografia – face seus complexos movimentos de câmera. Neste diapasão, embora já tenha se tornado clichê ressaltar a forma inteligente com que o formato 3D fora manejado por Scorcese, cabe, ainda, ressaltar para quem tenha passado despercebido a genial tentativa do cineasta em, através da terceira dimensão, fazer com que as platéias de hoje tenham uma melhor noção da aflição experimentada por aqueles que em 1895 se jogaram ao chão temendo que o trem exibido no primeiro filme projetado pelos Lumière, saltasse da tela e lhes atingisse.
4.Preview. Ed. 29. Ano 3. São Paulo: Sampa, 2012. p. 60.


COTAÇÕES:
A Invenção de Hugo Cabret - ۞۞۞۞۞        
Um Truque de Luz - ۞۞۞۞ 


Ficha Técnica – Um Truque de Luz
Título Original: Die Gebrüder Skladanowsky
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Henrick Heckmann, Sebastian Andrae Wim Wenders , Veit Helmer, German Kral, Barbara Rohm, Alina Teodorescu
Elenco: Nadine Buettner Rüdiger Vogler Alfred Sczczot Christoph Merg Bodo Werner Lang, Otto Kuhnle, Udo Kier, George Inci, Lucie Hürtgen-Skladanowsky, Wim Wenders
Duração: 79 min.

Ficha Técnica – A Invenção de Hugo Cabret
Título Original: Hugo
Direção: Martin Scorsese          Roteiro: Brian Selznick, John Logan
Produtores: Graham King, Johnny Depp, Martin Scorsese, Tim Headington
Elenco: Jude Law (Hugo's father)Catherine Balavage (Parisian Cafe Women)Asa Butterfield (Hugo Cabret)Frances de la Tour (Emilie)Michael Stuhlbarg (Rene Tabard)Helen McCrory (Mama Jeanne)Ray Winstone (Uncle Claude)Angus Barnett (Theatre Manager)Christopher Lee (Monsieur Labisse)Sacha Baron Cohen (Station inspector)Richard Griffiths (Monsieur Frick)Chloe Moretz (Isabelle)Ben Kingsley (Georges Méliès)Emily Mortimer (Lisette)Edmund Kingsley (Technician)Martin Scorsese (Fotografo)
Estreia no Brasil: 17 de Fevereiro de 2012           Estreia Mundial: 23 de Novembro de 2011
Duração: 126 min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário