Relatos Selvagens



Homo Homini Lupus

Insano é um adjetivo que bem se adéqua a Relatos Selvagens (Argentina/Espanha, 2014), afinal, numa espiral de situações realisticamente absurdas o filme vai a cada conto surpreendendo o espectador com uma cena mais hiperbólica que a outra. Tais exageros narrativos, vale dizer, jamais prejudicam o produto tendo em vista que o diretor Damián Szifrón sabe o exato instante de cessar suas tramas, não esticando para além do necessário nenhuma de suas piadas ou histórias – algo que poderia facilmente ocorrer numa toada hollywoodiana, por exemplo.

Neste diapasão, através de encontros indesejados seja com o passado, com a morte, com estranhos, com a burocracia ou com a descoberta de verdades incômodas, Szifrón expõe o lado animalesco que cada um esconde e que não raro se vê tentado a deixar aflorar por meio da vingança e da violência. E é em meio a tal enredo psicologicamente contundente que doses cavalares de humor negro são misturadas, aspecto esse em que se percebe certa influência do bom e velho escracho do produtor da obra Pedro Almodóvar¹. Dentro deste contexto, Relatos Selvagens pode até ser encarado como a comédia que há décadas o espanhol não entrega – Pasternak, o primeiro segmento da obra, ambientado quase todo no interior de uma aeronave, mesmo com seus poucos minutos é, por exemplo, infinitamente superior ao equivocado e horroroso Amantes Passageiros (Espanha, 2013), longa-metragem de humor cujo desenvolvimento Almodóvar também situara dentro de um avião.
Numa constatação inerente as antologias, alguns episódios, por óbvio, são melhores que outros, porém, nenhum deles se revela descartável ou irrelevante nem deixa de ser chocante² e ao mesmo tempo hilário, o que é fruto do já comentado timing de Szifrón quanto a interrupção do texto no instante ideal ao fomento de reflexões no público, além de um elenco inspirado no qual se destacam Erica Rivas no papel de uma noiva ensandecida e, como não poderia ser diferente, Ricardo Darín enquanto o homem comum, que tão bem vivifica, dessa vez indignado com a máquina estatal e sua sanha arrecadadora. 
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1.     Não a toa, Juliana Varella, de modo sintético e preciso, conclui: “Relatos Selvagens” tem algo do humor negro do diretor espanhol, somado à vocação sociológica do cinema argentino. É uma receita infalível” (FONTE: http://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/relatos-selvagens-traz-aos-cinemas-uma-irresistivel-sessao-de-humor-negro. Acesso em 16.04.15).
2.  Conforme analisa, Wilson Roberto Vieira Ferreira: "na medida em que Szifron começa a mesclar humor negro, situações inverossímeis e inesperadas cenas de violência brutal e gratuita (esfaqueamentos rpentinos, enforcamentos com cinto de segurança, corpos ensanguentados com cacos de espelho etc.) o espectador se pega dando sorrisos amarelos na escurdião da sala de cinema. a situação é de constrangimento: afinal de quê todos estão rindo?" (FONTE: http://cinegnose.blogspot.com.br/2014/10/o-humano-demasiado-humano-no-filme.html. Acesso em 16.04.15).

Ficha Técnica

Título Original: Relatos Salvajes
Direção e Roteiro: Damián Szifron
Produção: Agustín Almodóvar, Esther García, Hugo Sigman, Matías Mosteirín, Pedro Almodóvar
Elenco: Ricardo Darín, Erica Rivas, Darío Grandinetti, Leonardo Sbaraglia, Diego Gentile, Diego Velázquez, Julieta Zylberberg, Liliana Ackerman, María Marull, María Onetto, Mónica Villa, Nancy Dupláa, Oscar Martínez, Osmar Núñez, Ricardo Darín, Ricardo Truppel, Rita Cortese
Fotografia: Javier Julia
Direção Musical: Gustavo Santaolalla
Estreia no Brasil: 23.10.2014
Duração: 122 min.

Comentários

  1. É um bom filme. Uma Leonardo Sbaraglia visto em shows como O Hipnotizador, que agora transmite HBO.

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