EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 19 de abril de 2015

Cinquenta Tons de Cinza



Sexo Seguro

As coisas em Cinquenta Tons de Cinza (EUA, 2014) se materializam e se fundam pela via da exceção, assim, por exemplo, num plano externo a suntuosa vida levada por Christian Grey nada possui de normal para quem não é bilionário, ao passo que numa esfera íntima o prazer sexual dele e de sua parceira é atingido pela utilização de instrumentos de tortura que mantém os corpos afastados. Conectados a essa realidade plastificada a diretora Sam Taylor-Johnson junto com o casal de atores Dakota Johnson e Jamie Dornan apresentam um trabalho tão superficial quanto a premissa.
Neste sentido, nenhuma emoção indicada ao longo do filme soa genuína na medida em que a atriz, por maior que seja o esforço, acaba presa a teatralidade de sua personagem: uma jovem universitária que morde os lábios como ferramenta, clichê, de sedução, ao passo que o ator entrega a performance canastrona requerida pelo personagem metido a dominador sem, porém, agregar qualquer nuance extra capaz de tornar o papel mais interessante.

De resto, o que se vê é mera perfumaria (locações arrebatadoras e fotografia de filme publicitário unidas para mostrar o conto de fadas material no qual Anastasia Steele - Dakota Johnson -  se insere) e muita, mas muita covardia. Se, de um lado, em determinada cena Christian Grey pede a Anastasia que não se envergonhe de sua nudez, a câmera de Taylor-Johnson, em contrapartida, revela um pavor tremendo das genitálias de seus atores, evitando a todo custo, mediante enquadramentos e cortes irritantes, qualquer nu frontal. Desse modo, em se tratando de um sexo supostamente selvagem como o praticado pelo casal central, é decepcionante o pudor com que as cópulas são mostradas; aliás, os personagens não suam nem ficam marcados pelo sexo nervoso praticado, detendo intermitentemente, ao contrário, um aspecto tão clean quanto a decoração dos aposentos de Mr. Grey.
Essa superficialidade da adaptação cinematográfica de um livro mundialmente conhecido pela qualificação mommy porn, apesar do lamento ora expressado, não deve ser encarada com surpresa, isso porque a autora E.L. James abordara a questão do sadomasoquismo, desde o material de origem, de um jeito milimetricamente calculado para não extravasar a margem de segurança que mantém o interesse de consumidoras mais sensíveis, sendo essa uma fórmula de sucesso que não poderia ser desprezada por Hollywood.
Ederli Fortunato, dentro deste contexto, ressalta:
“o sucesso em um nicho não seria suficiente para explicar o fenômeno [de sucesso] se a história não oferecesse alimentos atrativos para um público mais amplo. Assim, como não se afasta do romance tradicional incluindo os clichês da virgem inocente, Cinquenta Tons de Cinza oferece uma dose de transgressão, de ir além dos limites graças a sua versão light de sadomasoquismo”¹.
Em busca da classificação R – segundo a qual menores de 17 anos podem assistir o filme desde que acompanhados de um dos pais – a produção se refestela na zona de conforto mommy porn arrastando-se até seu término sem qualquer traço de sensualidade ou ousadia. Num mundo perfeito esse tipo de material seria confiado a um diretor cru e sacana como Paul Verhoeven ou Lars Von Trier, artistas que, por certo, retratariam toda a perversão permitida pelo sexo quanto discutiriam o processo de prostituição ao qual Anastasia se entrega para satisfazer o sadismo de seu dominador. Eis um devaneio que se concretizado agradaria cinéfilos, feministas e sociólogos.
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1.     Revista Preview. Ano 6. ed. 65. São Paulo: Sampa, Feveiro de 2015.  p.17.

Ficha Técnica

Título Original: Fifty Shades of Grey
Direção: Sam Taylor-Johnson
Roteiro: E.L. James, Kelly Marcel
Elenco: Jamie Dornan, Dakota Johnson, Andrew Airlie, Ann Wu-Lai Parry, Anna Louise Sargeant, Anne Marie DeLuise, Anthony Konechny, Brent McLaren, Callum Keith Rennie, Chad Fortin, Dylan Neal, Eloise Mumford, Emily Fonda, Jason Cermak, Jason Verner, Jennifer Ehle, Jo Wilson, John Specogna, Jordan Gardiner, Julia Dominczak, Kirt Purdy, Luke Grimes, Marcia Gay Harden, Matthew Hoglie, Max Martini, Megan Danso, Peter Dwerryhouse, Rachel Skarsten, Raj Lal, Reese Alexander, Rita Ora, Steven Cree Molison, Tom Butler, Victor Rasuk
Produção: Dana Brunetti, E.L. James, Michael De Luca
Fotografia: Seamus McGarvey
Montagem: Lisa Gunning
Trilha Sonora: Danny Elfman
Estreia no Brasil: 12.02.15
Duração: 125 min.

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