EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Europa 51



Sem Credos Nem Ideais

Devido a uma grande tragédia experimentada, Irene Girard abandona a rotina de socialite de outrora e como expiação dos próprios pecados passa a se dedicar as pessoas necessitadas de apoio. Isto posto, suas motivações não possuem qualquer conotação religiosa e/ou política, sendo seus olhares de enfado perante um padre e um socialista bastante representativos nesse sentido.

Uma vez realizada essa breve introdução, Europa 51 (Itália, 1952) é precisamente definido por Jean-Michel Frodon como uma: “inédita fusão do melodrama como gênero popular com o filme de autor, com suas preocupações éticas e sociais“¹, isso porque Roberto Rossellini impregna uma história aparentemente novelesca com provocações de teor político-humanitário sem que isso soe como um manifesto tedioso. O cineasta não impõe ideais, mas apenas os sugere ou cita; neste passo, é emblemática a sequência em que Irene é consolada por um amigo que a incentiva a não se sentir culpada pela morte do filho, já que tal culpa seria na verdade da sociedade que forçou uma criança a enfrentar seus primeiros anos de vida em meio aos horrores da II Guerra Mundial. Feita tal declaração surge a preocupação: estaria Rossellini impondo sobre o espectador o nocivo pensamento da coletivização da culpa tão em voga, por exemplo, no Brasil dos anos 2010? Será que o diretor tentara convencer a plateia que praticantes de atos vis devem ser compreendidos já que antes de qualquer coisa são vítimas da sociedade e do sistema ou será esta uma chacoalhada praticada tão somente para tirar o público da zona de conforto, forçando-o, desta feita, a tecer suas próprias conclusões? A resposta chega já perto do término quando Irene afirma que sua motivação não é o amor ao próximo e sim o ódio a si mesma. Desse modo, Rossellini rechaça a ótica esquerdista que ao pregar a coletivização da culpa estimula a impunidade, afasta qualquer iniciativa da trama canonizar a protagonista e de quebra ainda demonstra que mesmo egoístas podemos ser úteis aos demais.
Tantas nuances, cabe salientar, não seriam tão exitosas sem uma atriz competente o suficiente para encarná-las, missão que Ingrid Bergman cumpre com inconteste talento, vide os olhares densos que ora mostram a dor da personagem ora apontam sua aura resignada, conformismo esse que possui um teor bastante significativo, pois se no início de sua jornada Irene estranha semelhante comportamento das classes desfavorecidas perante a penúria do pós-guerra, ao fim do longa-metragem é a própria protagonista que assim se comporta ante a opressão que passa a sofrer de seus antigos pares.
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1.1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. p. 271.

Ficha Técnica

Direção: Roberto Rossellini
Roteiro: Roberto Rossellini, Sandro De Feo, Mario Pannunzio, Ivo Perilli, Brunello Rondi
Produção: Roberto Rossellini, Dino de Laurentis, Carlo Ponti
Elenco: Ingrid Bergman, Alexander Knox, Ettore Giannini, Giulietta Masina, Tina Perna, Sandro Franchina, Teresa Pellati, Alberto Plebani, Alfred Brown, Maria Zanoli, William Tubbs
Fotografia: Aldo Tonti
Montagem: Jolanda Benvenuti
Trilha Sonora: Renzo Rossellini
Estreia: 04.12.1952
Duração: 113 min.

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