Os Cowboys



Caldeirão Cultural

Os Cowboys (França 2015) do ora estreante Thomas Bidegain traz à memória a complexidade dos trabalhos de Asghar Farhadi, na medida em que tal como, por exemplo, ocorre em A Separação (Irã, 2011)¹ e O Passado² (França/Itália/Irã, 2013), a trama do longa-metragem francês vai gradativamente se tornando mais e mais intricada dada a apresentação de eventos chocantes que se superam em dramaticidade. Tal como Farhady costuma fazer, Bidegain trata o fato atípico que deflagra a narrativa como mera ponta de um iceberg, haja vista que seu roteiro não se contenta com a superfície e, assim, se esmera em arquitetar novos acontecimentos ainda mais desafiadores e ultrajantes – qualidade essa que não há de ser estranhada tendo em vista que Bidegain fora o responsável pelos scripts dos premiados e saudados O Profeta (França, 2009), Ferrugem e Osso³ (França/Bélgica, 2012) e Dheepan – O Refúgio (França, 2015).

Outra influência perceptível no drama é Alfred Hitchcock, afinal, de forma semelhante a como este procedera em Psicose (EUA, 1960), Bidegain tem também a ousadia de abandonar seu protagonista antes da metade do filme, pondo outra figura em tal lugar de destaque.  Isto posto, há de ser frisado que o roteiro de Os Cowboys é superlativo não apenas em razão das suas referências fílmicas como também e, sobretudo, graças ao seu conteúdo empenhado em abordar a miscigenação cultural de uma França cujos nativos acabam adeptos de hábitos díspares oriundos tanto da América quanto do islamismo radical. E é neste caldeirão étnico-cultural que a tensão é estruturada, daí, não a toa, a história de uma garota desaparecida e da busca efetuada pelo respectivo pai ganhar nuances bastante diferentes das vistas em outros títulos com temática parecida como Sobre Meninos e Lobos (EUA, 2003) e Os Suspeitos (EUA, 2013).
Não fosse o bastante ser um exímio roteirista, Bidegain também demonstra talento na direção de elenco, valendo nesse aspecto salientar a participação especial de John C. Reilly, enigmático e repugnante num papel relevante como há tempos o ator não assumia. Dispondo de um roteiro maduro e de atores irrepreensíveis, Os Cowboys constitui um caso cada vez mais raro de cinema adulto capaz de incomodar, de devastar o espectador perante o que vira. Não é pouco.
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1. Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html e http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/04/o-julgamento-de-viviane-amsalem.html.
2.     Leia mais sobre O Passado em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/06/o-passado.html.
3.    Leia mais sobre Ferrugem e Osso em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/10/ferrugem-e-osso.html
4.   Leia mais sobre Os Suspeitos e Sobre Meninos e Lobos em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/11/os-suspeitos-sobre-meninos-e-lobos.html.

Ficha Técnica

Título Original: Les Cowboys
Direção: Thomas Bidegain
Roteiro: Thomas Bidegain, Laurent Abtibol e Noé Debré
Elenco: François Damiens, Finnegan Oldfield, Agathe Dronne, John C. Reilly, Ellora Torchia
Fotografia: Arnaud Potier
Trilha Sonora: Moritz Reich
Duração: 104 min.

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