EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 18 de setembro de 2016

Califórnia



Receita Desgastada?

 Califórnia (Brasil, 2015) faz de sua ambientação nos anos 80 uma muleta já que se dependesse do seu pobre roteiro o filme não se sustentaria. Ou será o contrário?  Califórnia tem seus melhores momentos quando para de voltar a atenção apenas para cenários, figurinos e música e, em contrapartida, se dedica a também contar uma história. O roteiro acabou prejudicado pelo excesso de preocupação demonstrado para com a direção de arte e trilha musical ou desde sua essência a trama já apresentava falhas e clichês, daí que a proposta de uma viagem ao passado não passa de uma tentativa de mitigar defeitos embrionários?

Ante tais questionamentos, cabe também indagar: será essa revisitação oitentista uma receita já desgastada? O seriado Stranger Things, por exemplo, prova que o tal desgaste ainda não é uma realidade. Com efeito, grande parte do fator responsável pelo êxito da série consiste em deixar a ambientação de época a serviço da história e não o contrário - não a toa, as referências desfilam de forma mais fluida na tela, desafiando o espectador a buscar na memória qual a origem de determinada composição cênica. Tais méritos faltam a Califórnia, o que é natural tendo em vista a sensação de que Marina Person primeiro decidiu utilizar os anos 80 e somente em seguida, junto com os demais roteiristas, passou a tentar encaixar em tal intervalo histórico um enredo qualquer que, aliás, por vezes parece saído de um episódio das nacionais Confissões de Adolescente e Mallhação. 
Exceto pelo espaço dedicado a banda The Cure, nem mesmo a trilha musical consegue sair do óbvio, na medida em que Person opta por, de maneira, limitada reproduzir hits de grupos como Titãs, Kid Abelha e Blitz, perdendo, assim, a oportunidade de resgatar clássicos do período já esquecidos ou não conhecidos pelas novas gerações¹. Neste passo, a inclusão de ‘De Repente, Califórnia’ (Lulu Santos) prima pela obviedade tanto quanto os caminhos traçados pelos personagens. Desnecessário.
___________________________
1.     Eventual não liberação dos direitos de reprodução seria a única justificativa aceitável para tal falha.

Ficha Técnica

Direção: Marina Person
Roteiro: Francisco Guarnieri, Mariana Veríssimo, Marina Person
Elenco: Amanda Chaptiska, Amanda Zamora, Caio Blat, Caio Horowicz, Clara Gallo, Cristiano Damasi, Domingas Person, Eloisa Turini, Francisco Guarnieri, Gilda Nomacce, Giovanni Gallo, Gustavo Rosa de Moura, Isabella Scherer, Ivo Müller, Joelson Oliveira, Letícia Fagnani, Livia Gijon, Nathalia Magalhães Vicentim, Paulo Miklos, Pedro Goifman, Samir Rashid, Virginia Cavendish
Produção: Carmem Maia, Giulia Setembrino, Gustavo Rosa de Moura, Marina Person
Fotografia: Flora Dias
Montador: Bernardo Barcellos
Trilha Sonora: Henrique Chiurciu
Estreia: 03.12.2015
Duração: 85 min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário