Nerve – Um Jogo Sem Regras



Quando Problematizar Não Convém

Em tempos de Baleia Azul¹ é lastimável constatar o quanto Nerve – Um Jogo Sem Regras (EUA, 2016) faz questão de ser tolo e não se debruçar sobre a problemática que apenas lhe serve de pano de fundo, qual seja o excesso de exposição de jovens no ambiente virtual, a forma inconsequente com que buscam dar tempero as suas vidas e o desespero que marca as tentativas de preencher o vazio existencial que não raro caracteriza a adolescência e início da fase adulta.

Neste passo, ao invés de fomentar um pensamento autocrítico no público alvo, a produção se limita a cumprir a tarefa de entreter, valendo-se para tanto de: um par romântico, sequências de aventura e suspense e um final feliz. Dito isso, é uma pena que os perfis psicológicos dos personagens, sobretudo os participantes do jogo, sejam tratados com tanta superficialidade, o que, é óbvio, visa não problematizar demais o enredo para, assim, não perder plateia – como se para existir o entretenimento precisasse abdicar da densidade, teoria, há de se convir, equivocada e implodida por filmes como Logan e Batman – O Cavaleiro das Trevas.
Dentro deste contexto, chama a atenção como as cenas que envolvem o risco de morte a que se sujeitam os participantes do jogo são quase todas desenvolvidas às pressas, ao passo que missões pueris como experimentar um vestido em uma loja de luxo são tratadas em ritmo menos frenético resultando, desta feita, em passagens mais interessantes e bem construídas, estratégia que denota a intenção final de divertir sem incomodar os jovens nem apavorar os pais. Por isso, correta a avaliação de Edu Fernandes sobre Nerve, a saber:
“Muito se fala sobre os malefícios das redes sociais e da exposição virtual de nossas intimidades. Esse filme de apelo juvenil usa a fórmula de um thriller de ação para convidar a uma reflexão sobre o tema [...]. A receita funciona e entretém, só resta saber qual parcela do público absorverá o subtexto”.
Ao contrário do que irresponsavelmente o longa-metragem pode levar a pensar, o Nerve da vida real não torna ninguém mais popular nem interessante, não proporciona inícios de namoros nem concede premiações em dinheiro aos participantes. O Nerve da vida real serve tão somente como método de fuga, como um grito abafado de socorro de pessoas com problemas de socialização e/ou familiares, realidade preocupante e melancólica que o Nerve cinematográfico sequer tenta entender.
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1.Leia mais sobre o jogo da Baleia Azul em http://veja.abril.com.br/brasil/garota-morta-em-represa-poe-jogo-do-suicidio-na-mira-da-policia/. Acesso em 30.04.17.
2. Revista Preview. Ano 7. ed. 83. São Paulo: Sampa, Agosto de 2016. p.53.

Ficha Técnica

Título Original: Nerve
Direção: Ariel Schulman, Henry Joost
Roteiro: Jessica Sharzer
Elenco: Juliette Lewis, Arielle Vandenberg, Brian 'Sene' Marc, Danielle DeWulf, Dave Franco, Dillon Mathews, Ed Squires, Emily Meade, Emma Roberts, Jonny Beauchamp, Kelsey Lynn Stokes, Kimiko Glenn, Machine Gun Kelly, Marc John Jefferies, Marko Caka, Miles Heizer, Rosemary Howard, Samira Wiley, Toshiko Onizawa
Produção: Allison Shearmur, Anthony Katagas
Fotografia: Michael Simmonds
Montagem: Jeff McEvoy, Madeleine Gavin
Trilha Sonora: Rob Simonsen
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Duração: 96 min.

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