Logan



Adeus e Boas-Vindas

Sem dúvida a melhor decisão tomada pelos produtores de Logan (EUA, 2017) foi abdicar de fazer deste um filme para a família e, ao invés disso, entregar um trabalho voltado ao público adulto, o que permite um nível de comprometimento com a trama e com os personagens infinitamente superior na medida em que concessões não precisaram ser feitas para evitar o choque dos mais novos. Assim, o que se vê é uma trama na qual a decadência e a violência ditam as regras em meio a diálogos impróprios, vulgares que bem espelham o estado de espírito de seus interlocutores – aspecto esse em que chama positivamente a atenção o palavreado chulo e mergulhado em raiva do Prof. Xavier aqui surpreendente e magnificamente interpretado por um Patrick Stewart no auge de sua maturidade artística.
Dentro deste contexto, a opção de não seguir a linha narrativa comum aos filmes de heróis deixa Logan livre para, por exemplo:
- abrir mão de um algoz específico em prol de uma vilania representada por toda uma sociedade decrépita e preconceituosa;
- apresentar uma jornada desesperançosa, marcada pelo definhamento de um personagem icônico, daí inexistir a pretensão de mostrar Wolverine como o colosso de outrora.
Nestes termos, o longa-metragem sabiamente se dispõe a acompanhar os últimos dias de vida de Logan, o que, há de se convir, já é por si só uma ideia bastante corajosa e, por isso, animadora. É claro que o interesse por continuar lucrando com a franquia X-Men permanece, contudo, a obra em comento indica que a indústria já se dá por satisfeita com tudo o que fora explorado em torno das figuras lideradas de um lado por Xavier e de outro por Magneto e, assim, trata de deles se despedir – com uma dignidade ímpar na medida em que não são aqueles tratados como meros produtos de entretenimento e sim como seres deveras complexos e fustigados pelas chagas do tempo – além de plantar a semente para o amanhã ao apresentar os novatos que representarão a próxima geração dos mutantes nos cinemas, aspecto esse em que salta aos olhos a arrebatadora presença de Dafne Keen num papel infantil que supera em virulência aquilo que um dia fora visto por meio da Hit-Girl em Kick-Ass – Quebrando Tudo (EUA, 2010), haja vista que para sua Laura/X-23 não sobra espaço para alívio cômico, sendo seu percurso, desta feita, caracterizado somente por dor e instinto de sobrevivência, essências essas que se coadunam com os derradeiros passos do próprio Logan que aqui recebe a interpretação definitiva de Hugh Jackman² tamanhas as notas de sofrimento físico e psicológico concedidas pelo ator ao personagem. Ao lado da revelação Keen e de um memorável Patrick Stewart, Jackman forma uma linha de frente de elenco em estado de graças conduzida com inconteste eficiência por James Mangold, um diretor envolvido com o material que tem em mãos como há tempos não se via.
Logan possui um único senão, qual seja o excesso de semelhanças entre a história de X-23 para com a de Eleven do seriado Stranger Things, similitude que por vezes incomoda mas que não chega a comprometer de maneira grave o resultado da obra e muito menos do trabalho da respectiva atriz que, por certo, poderá em outras ocasiões retomar o papel e ter a oportunidade de trilhar caminhos que tornem as personagens menos parecidas. O futuro parece promissor.
_____________________
1.  Leia mais sobre Kick-Ass em http://setimacritica.blogspot.com.br/search?q=Kick+Ass.
2. Ator que, aliás, já havia provado seu talento seja nas oportunidades anteriores em que interpretou o mutante, seja na elogiada participação em Os Miseráveis (EUA, 2012).

Ficha Técnica

Direção: James Mangold
Roteiro: David James Kelly
Elenco: Hugh Jackman, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Dave Davis, Doris Morgado, Elise Neal, Elizabeth Rodriguez, Eriq La Salle, Jaden Francis, Juan Gaspard, Julia Holt, Lauren Gros, Patrick Stewart, Richard E. Grant, Sienna Novikov, Stephen Merchant
Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg
Fotografia: John Mathieson
Montagem: Dirk Westervelt, Michael McCusker
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Estreia: 02/03/2017 (Brasil)
Duração: 135 min.

Comentários

POSTS RECENTES MAIS LIDOS