EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo



Para o Desespero dos Fãs

Convenhamos: 99% do público brasileiro de Faroeste Caboclo (Brasil, 2013) já sabe de antemão o início, o meio e o fim de sua trama porque conhecedor da canção homônima de Renato Russo. Logo, é fácil concluir que esse contingente não busca surpresas mas apenas uma adaptação fiel e minimamente satisfatória para com a tão idolatrada música. Lamentavelmente, porém, tais expectativas são frustradas na medida em que:

- flashbacks são inseridos numa narrativa que é originalmente linear, denotando, assim, o afã, por parte da edição, de agregar ao filme um ineditismo idealizado tão somente pelos egos daqueles que pretendiam apor suas próprias assinaturas sobre a criação de Renato Russo;
- o time de roteiristas envolvido no projeto não consegue aproveitar o roteiro pronto que é a canção, o que leva certas passagens desta, para o desespero dos fãs mais xiitas, a serem ora omitidas/descartadas ora alteradas ora solucionadas de forma duvidosa;
- o triângulo amoroso da versão cinematográfica pouco convence, o que em grande parte se deve ao ineficaz delineamento do personagem Jeremias que, para piorar, é encarnado por um limitado Felipe Abib;
- momentos tensos da canção como o estupro de João de Santo Cristo e o duelo final são encenados de forma apressada e anticlimática.
Se por um lado a essência da canção é cinematograficamente prejudicada em razão de escolhas equivocadas como a superestimação do viés romântico em detrimento da conotação política que caracterizara aquela, determinados aspectos do longa-metragem, sobretudo técnicos, garantem-no, por outro lado, a dose de valor salvadora, no que se destacam os impecáveis trabalhos de fotografia e de direção de arte, bem como a presença de Isis Valverde linda e ótima enquanto Maria Lúcia. Ok, essas são virtudes que merecem o devido registro, mas que, em última instância, não são o bastante para manter de pé um filme baseado em tão vigoroso e aclamado título. A maior prova disso é que a execução da música Faroeste Caboclo durante os créditos finais possui um efeito acachapante sobre o filme¹, lembrando-nos, como se preciso fosse, qual das duas obras é a que possui verdadeira importância.
Tomara que Eduardo e Mônica, caso um dia vá realmente para as telas do cinema, tenha sorte melhor.
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1.Em sentido parecido Rubes Ewald Filho afirma: “a semelhança do filme com a famosa e longa canção é muito vaga e distante. Você pode ouvi-la nos letreiros finais e vai ficar estarrecido como pouco tem a ver com o filme. Que basicamente é uma historia de drogas, os personagens passam o tempo todo fumando maconha [...] e depois cheirando cocaína com arroubos de Scarface.” (FONTE:  http://rubensewaldfilho.blogspot.com.br/2013/05/faroeste-caboclo.html. Acesso em 03.06.2013).

FICHA TÉCNICA

Direção: René Sampaio
Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino, Paulo Lins
Produção: Barbara Isabella Rocha
Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Felipe Abib, Marcos Paulo, Antonio Calloni, Cinara Leal,Rodrigo Pandolfo, Juliana Manfredini, Cesar Troncoso
Fotografia: Gustavo Hadba           
Montagem: Marcelo Moraes
Estreia: 30.05.2013               
Duração: 106 min.

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