EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Planeta Solitário



Dois Segundos

Num ato instintivo de autoproteção, Alex prioriza em certo momento sua sobrevivência em detrimento da vida de sua companheira Nica. Ainda que a reação do homem não tarde e ele logo busque remediar o primeiro gesto de defesa praticado, a pecha do egoísmo e da covardia deixa sua sombra entre o casal, alterando sobremaneira a conduta da mulher que vê suas certezas caírem por terra.


Impressiona como Planeta Solitário (EUA/Alemanha, 2011), na condição de longa-metragem, se justifica e se sustenta em torno dos dois meros segundos tomados por aquele primeiro ato do personagem de Gael García Bernal. A partir de tão surpreendente cena ocorre a transição do primeiro para o segundo ato da trama, restando então alterada toda a concepção do espaço percorrido e dos sentimentos envolvidos. Desta feita, a paixão de outrora e a beleza das paisagens visitadas pelos dois são substituídas pelo distanciamento, pela falta de graça e, sobretudo, pelo silêncio decorrente da dificuldade que ambos tem para tratar o que lhes aflige. Porém, como os sentimentos e a própria vida são ambíguos, um confuso resquício de carinho e preocupação da garota (Hani Furstenberg) perante seu par por vezes dá as caras, o que, vale dizer, não é suficiente para pensar que tudo voltará a ser com antes – incerteza essa, aliás, bem retratada pelo final em aberto da obra.
No afã de ser fiel ao ritmo das fases do relacionamento, a diretora Julia Loktev peca apenas por exagerar na lentidão dos tempos mortos manejados para fins de conclusão da segunda metade da obra. Felizmente, até tal monotonia começar a incomodar, todas as intenções presentes no roteiro¹ já foram transmitidas e assimiladas pelo espectador, o que, frise-se, resulta daqueles impactantes dois segundos.
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1. Segundo Rubens Ewald Filho, o filme é “vagamente inspirado num conto de Hemingway, alias famoso, A Curta e feliz vida de Francis Macomber, que por sua vez é baseado num incidente real que sucedeu antes da Segunda Guerra e que ate virou filme com Gregory Peck em 1947 (Covardia, com Joan Bennett). E também noutra historia, Exprensive Trips Nowhere, de Tim Bissell. Ambos são sobre casais de americanos que se aventuram numa excursão por um lugar de difícil acesso” (FONTE: http://rubensewaldfilho.blogspot.com.br/2013/06/planeta-solitario.html. Acesso em 22.01.15) .

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Loneliest Planet
Direção e Roteiro: Julia Loktev
Elenco: Hani Furstenberg, Gael García Bernal, Bidzina Gujabidze
Produção: Helge Albers, Jay Van Hoy, Lars Knudsen, Marie Therese Guirgis
Fotografia: Inti Briones
Montagem: Michael Taylor
Estreia no Brasil: 03.04.14
Duração: 113 min.

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