EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sicario – Terra de Ninguém



A Derrota das Ressalvas

Sicario – Terra de Ninguém (EUA, 2015) é uma obra forte, contundente e de sequências arrasadoras dado o grau de tensão com que retratadas. Todo esse êxito corrobora em última instância o talento de Denis Villeneuve e prova para quem ainda pudesse duvidar – mesmo depois de O Homem Duplicado (Canadá/Espanha, 2013)¹ – que o canadense é um expert da narrativa cinematográfica em fase impecável da carreira tal como um dia ocorrera com nomes como Brian de Palma e David Fincher, por exemplo.
Como de costume, há quem prefira ressaltar as falhas e frisar que o roteiro do longa-metragem por vezes peca ao inserir uma subtrama desnecessária sobre a história familiar de um policial corrupto, bem como ao manipular sobremaneira as emoções e a trama mediante a apresentação de algumas soluções fáceis e pouco verossímeis². É claro que tais ressalvas não conseguem nem podem ser ignoradas, porém, a construção imagética é em outros vários instantes dotada de tamanho realismo que difícil é não relevar os poucos deslizes do filme e usufruir do impressionante trabalho de Villeneuve que, além de verdadeiro arquiteto da linguagem audiovisual, também é um exímio diretor de elenco, arrancando de seus atores interpretações não menos que ótimas.
Dentro deste contexto, a performance de Emily Blunt há de ser destacada enquanto a figura feminina que tenta se firmar e impor num meio misógino, tarefa essa cumprida sem o equívoco de masculinizar a personagem nem compô-la frágil ao extremo, atingindo-se, assim, um meio termo que torna a protagonista bastante interessante ainda que sua inocente busca pela verdade e a decepcionante constatação de que certo e errado se confundem numa realidade de valores totalmente invertidos não seja algo completamente novo.
Neste sentido, sem nenhum demérito, o ineditismo não é a meta principal de Sicario cujo real objetivo é retratar um pouco da guerra contra o tráfico de drogas da forma mais realista e intensa possível - o que, vale dizer, o diferencia, por exemplo, da superestimada série Narcos que pouco acrescenta a um assunto já tão abordado.  Graças ao modo como foram filmados e interpretados, até mesmo os momentos e pontos de virada carentes de ineditismo resultam impactantes e memoráveis, o que faz da produção responsável por dar novo fôlego ao gênero policial tão explorado nos últimos anos pelos seriados televisivos, mas deixado um tanto de lado pelo cinema.
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1.Leia mais sobre O Homem Duplicado em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/05/o-homem-duplicadoo-duploo-menino-no.html.
2. Nesta toada sugere-se a leitura da crítica disponível em http://www.planocritico.com/critica-sicario-terra-de-ninguem/.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Sicario
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro, Alan D. Purwin, Daniel Kaluuya, Dylan Kenin, Jeffrey Donovan, Jon Bernthal, Julio Cedillo, Kaelee Vigil, Lora Martinez-Cunningham, Maximiliano Hernández, Raoul Trujillo, Sarah Minnich, Victor Garber
Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill
Fotografia: Roger Deakins
Montagem: Joe Walker
Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson
Estreia: 22/10/2015 (Brasil)
Duração: 121 min.

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