EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 24 de janeiro de 2016

Spotlight – Segredos Revelados



Pisando em Ovos

Ao analisar o drama alemão Labirinto de Mentiras (2014) Roberto Cunha salienta que: “Diferentemente da maioria dos filmes sobre o tema [nazismo], o horror aqui não está nas imagens, mas no que se ouve dos personagens ¹. Tal observação faz lembrar aquilo que Spotlight – Segredos Revelados (EUA, 2015) almeja ter como trunfo, mas hesita ao pôr em prática, qual seja a estratégia de narrar casos de abuso infantil praticados por dezenas de padres apenas mediante diálogos e entrevistas, dispensando, assim, o uso de imagens e flashbacks.
Em sendo uma história investigativa, Spotlight situa sua ação fílmica no tempo presente, daí, como já dito, não se valer de encenações dos atos de pedofilia. Por conseguinte, a narrativa se vale tão somente dos relatos orais das vítimas, o que não seria demérito algum caso a obra não demonstrasse tanto medo de escancarar a ferida, optando, assim, por, infelizmente, interromper as falas sempre que essas ameaçam se tornar incômodas a ouvidos sensíveis.

Não resta dúvida de que dentro de seu formato convencional a produção é bem conduzida - vide, por exemplo, a forma correta com que demonstra o comportamento ambíguo de certos jornalistas temerosos em encarar a Igreja Católica de maneira tão acintosa - amarrada e interpretada – aspecto esse em que se destaca a atuação low profile de Liev Schreiber – qualidades que, entretanto, não camuflam a sensação de que um embate mais incisivo e crítico poderia ter sido feito em torno do assunto da pederastia clerical.
Há filmes que ganham pontos em razão da forma imparcial com que tratam assuntos polêmicos, deixando exclusivamente para a plateia a tarefa de julgar, há outros que, ao contrário, possuem a missão de denunciar², daí elegerem desde o início um lado a defender, categoria essa que não permite titubeação, afinal, quanto menor o número de concessões feitas, melhor será o resultado e a capacidade causada de causar reflexões. Neste sentido, enquanto Spotlight enfurece ante a considerável dose de cautela apresentada, o brutal Beasts of No Nation (EUA, 2015), primeiro longa-metragem original produzido pela empresa Netflix, serve como exemplo de um modus operandi totalmente diverso, na medida em que denota plena liberdade no trato da questão do aliciamento infantil no seio da guerra. Destarte, o sensacional trabalho do diretor Cary Joji Fukunaga demonstra o que é ter não apenas a infância como toda uma vida roubada, eis que os atos de barbárie bélicos vistos e praticados pelo protagonista de seu filme restam gravados na alma, daí a produção lograr o êxito de permanecer incomodando não só do início ao fim como também por muito tempo depois, tal como um filme da categoria denunciativa supracitada há de permitir.
Ao que parece a distribuição de prêmios para Spotlight soa como uma atitude politicamente correta de posicionamento contra o abuso infantil. O hype em torno da obra, pelo visto, se deve mais ao tema do que ao seu valor cinematográfico (no que se inclui forma e conteúdo). Desse modo, um filme bom, porém, em momento algum memorável, acaba alçado a um patamar que não faz jus graças exclusivamente a uma comoção social. Por certo, o barulho causado seria mais relevante e quem sabe eficiente se o título não temesse mergulhar fundo em águas tortuosas, leia-se, em relatos escabrosos sobre a perversão clerical.
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1.   Revista Preview. Ano 7. ed. 75. São Paulo: Sampa, Dezembro de 2015.  p. 53.
2.   A utilização de tal verbo por certo não é a mais precisa, considerando que quase sempre os assuntos abordados já foram amplamente divulgados pela mídia.

Ficha Técnica

Título Original: Spotlight
Direção: Thomas McCarthy
Roteiro: Josh Singer, Thomas McCarthy
Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Stanley Tucci, Rachel McAdams, Billy Crudup, Brian Chamberlain, Brian d'Arcy James, Doug Murray, Duane Murray, Elena Wohl, Gene Amoroso, Jamey Sheridan, John Slattery, Liev Schreiber, Michael Cyril Creighton, Neal Huff, Paul Guilfoyle, Robert B. Kennedy, Sharon McFarlane
Produção: Blye Pagon Faust, Michael Sugar, Nicole Rocklin, Steve Golin
Fotografia: Masanobu Takayanagi
Montagem: Tom McArdle
Trilha Sonora: Howard Shore
Estreia Brasil: 07.01.16
Duração: 128 min.

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