EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 20 de março de 2016

O Quarto de Jack



Nó na Garganta

É difícil ser objetivo diante de uma obra tão tocante quanto O Quarto de Jack (Canadá/Irlanda, 2015). O drama emociona, provoca nó na garganta e, o que é melhor, sem jamais soar como um dramalhão ainda que grandes os riscos de assim se comportar.

De considerável importância para o êxito do resultado final, o meticuloso roteiro – adaptado pela própria autora da obra original – cinde a narrativa em dois atos respectivamente marcados pela clausura e liberdade. Nesta toada, durante a prisão salta aos olhos a forma lúdica com que a personagem feminina tenta driblar a crueza da realidade para garantir o mínimo de inocência a infância de seu filho e adiante o incisivo rompimento dessa tática quando expõe a verdade àquele, revelando a existência de um mundo além das quatro paredes do quarto onde vivem, o que, por óbvio, provoca a negação e o desespero de uma criança que vê todas suas certezas ruírem. Carregados das emoções a eles inerentes tais momentos por si só já renderiam um ótimo filme, mas eis que O Quarto de Jack leva além a abordagem e o êxito de sua narrativa ao se debruçar sobre os acontecimentos posteriores ao retorno/chegada ao mundo exterior; nessa etapa o filme cresce vertiginosamente ao mostrar com delicadeza ímpar o estranhamento de Jack perante uma realidade que imaginava existir apenas na televisão, bem como a depressão de sua mãe frente os traumas experimentados nos anos de prisão e o questionamento a ela dirigido quanto até que ponto agira de modo correto ao manter a criança consigo ao invés de tê-la mandado embora através de seu carcereiro logo nos primeiros meses de vida daquela.
E não para por aí: o longa-metragem também dedica precioso espaço a dificuldade experimentada por aqueles que desse lado ficaram ao tentar reencaixar em suas vidas quem há muito se fora e que a princípio sequer retornaria. Some-se a isso o preconceito do qual Jack é vítima por parte do avô - haja vista ser o menino fruto dos reiterados abusos sexuais sofridos pela mãe durante o cárcere - e o que se tem é um exemplo raro de completude narrativa em que aspectos diversos e, sem exceção, importantes da história são abordados a contento ao mesmo tempo em que ramificações são sumariamente descartadas porque não interessam aos protagonistas. Para Jack e sua genitora pouco importa ter notícias do avô preconceituoso ou até mesmo do homem que lhes aprisionara; com efeito, a forma ríspida com que tais figuras são limadas da trama se coaduna com o desejo daqueles primeiros de aproveitar aquilo que de bom o mundo e as demais pessoas têm a oferecer, possibilidade essa resumida em duas lindas sequências, quais sejam a da fuga de Jack quando este se depara com uma inédita natureza, bem como quando, sob o olhar de felicidade da mãe, consegue pela primeira vez brincar com outra criança. Tais cenas reluzem o cuidado e sensibilidade do cineasta Lenny Abrahamson que agrega suavidade a uma história tão dura, além, é claro, do talento de Jacob Tremblay que parece nascido, talhado para o papel que interpreta – é comum atores prodígios não conseguirem repetir na adolescência ou fase adulta as brilhantes performances apresentadas na infância, vide os casos de Anna Paquin, Haley Joel Osment, Abigail Breslin e Chloë Grace Moretz, porém, qualquer que seja o futuro, é certo que será eterno o deleite de vê-lo ao lado da também ótima Brie Larson numa interpretação que atende a todos os anseios da trama e de seu diretor no que significa emocionar sem ser apelativo.
Graças a conjunção de suas qualidades, o impacto causado por O Quarto de Jack é o mesmo quer o espectador saiba ou não como se desenvolverá o enredo. Um triunfo, portanto.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Room
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Cas Anvar, Jack Fulton, Jacob Tremblay, Jee-Yun Lee, Joan Allen, Joe Pingue, Justin Mader, Kate Drummond, Matt Gordon, Ola Sturik, Randal Edwards, Rodrigo Fernandez-Stoll, Rory O'Shea, Sandy McMaster, Sean Bridgers, Tom McCamus, Wendy Crewson, William H. Macy, Amanda Brugel, Zarrin Darnell-Martin
Produção: David Gross, Ed Guiney
Fotografia: Danny Cohen
Montagem: Nathan Nugent
Trilha Sonora: Stephen Rennicks
Estreia: 18/02/2016 (Brasil)
Duração: 118 min.

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