EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 29 de maio de 2016

Me Excita, Droga!



Misoginia Fofinha

A violência sexual não permite relativizações. É um crime e como tal merece repúdio e condenação. Tal pensamento, desta feita, desconstrói qualquer possibilidade de considerar Me Excita, Droga! (Noruega, 2011) uma realização bem-sucedida dada a insistência com que minimiza o drama do abuso enfrentado por sua protagonista. Neste contexto, Alma é uma adolescente entediada com a rotina da pequena cidade interiorana onde reside. Suas insatisfações, vale dizer, podem soar frívolas considerando que a realidade de nação desenvolvida por ela experimentada é anos-luz melhor e mais cômoda que, por exemplo, a rotina de jovens que tem a liberdade cerceada em países fundamentalistas¹, porém, uma vez reconhecido que a adolescência é uma fase em que naturalmente as pessoas são insatisfeitas com o peso, com os pais, com as condições financeiras e com as limitações do ir e vir, as revoltas nesse sentido manifestadas por Alma se tornam até compreensíveis, condescendência que, entretanto, não é possível de ser mantida depois que o assunto abuso sexual adentra na trama.

Apesar de estar com os hormônios à flor da pele e, consequentemente, sedenta por sexo, Alma, mantém o inocente sonho de namorar Artur, um cobiçado e popular colega do colégio, esperança cor-de-rosa essa que se torna um pesadelo quando ele na primeira oportunidade abusa da garota apaixonada cutucando-a com seu pênis.  Inicialmente, num ato errôneo fruto de sua inexperiência e do anseio por se manter aceita em seu meio, Alma parece se sentir lisonjeada por ter o garoto por quem é apaixonada lhe direcionado segundos de atenção com o falo. Ao contar para amigas o ocorrido uma reação em cadeia por ela inesperada se deflagra: Artur nega a acusação, Alma ganha a fama de mentirosa e vira alvo de chacota em toda a escola.
A partir daí o material que poderia se tornar um libelo contra o abuso sexual na adolescência é, ao contrário, manipulado por uma ótica preconceituosa e misógina devidamente disfarçada por uma embalagem falsamente bobinha e engraçadinha, isso porque a desconfiança em torno das palavras de Alma cresce a tal ponto que em determinado instante o próprio longa-metragem trata de confundir o espectador sobre a veracidade da denúncia feita pela garota que, assim, segue rotulada como uma mulher tresloucada e inconsequente ao passo que o abusador é indevidamente vitimizado. Nesta toada, Alma e a narrativa permanecem demonstrando apreço pelo agressor e pelas pessoas que a julgam. Quando finalmente parece compreender que não possui culpa alguma e que fora alvo de um canalha, eis que o filme e a personagem abrem espaço para a redenção de Artur que num ato semelhante ao de um príncipe encantado da Disney reassume o status de bom moço sem, ao contrário do que ocorrera com Alma, ter passado por qualquer espécie de represália contra o abuso cometido. Destarte, Alma sofre toda sorte de consequência moral em razão do assédio sofrido enquanto Artur acaba premiado com o perdão e o corpo dela.
Sim, a vida é cheia de incoerências dessa espécie, todavia, cabia à produção ser mais responsável e, ao invés de tratar o abuso sexual como um percalço passageiro, quando não fofo, da adolescência, encarar o tema como de fato é: um crime que não abre margem para justificativas quanto a atitude do agressor. Considerando que o público alvo da obra é a plateia jovem não deveria esta terminar a sessão tão confusa e ludibriada quanto Alma.
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1.     Cinco Graças (França/Turquia/Alemanha, 2015) é um exemplo de filme que aborda essa dura realidade.

Ficha Técnica

Título Original: Få meg på, for faen

Direção: Jannicke Systad Jacobsen

Roteiro: Jannicke Systad Jacobsen, baseado na obra de  Olaug Nilssen

Produção: Brede Hovland, Knud Bjørne-Larsen

Elenco: Henriette Steenstrup, Julia Bache-Wiig, Malin Bjørhovde, Matias Myren , Helene Bergsholm, Julia Schacht, Arthur Berning, Jon Bleiklie Devik, Lars Nordtveit Listau, Beate Støfring

Montagem: Zaklina Stojcevska
Fotografia: Marianne Bakke
Trilha Sonora: Ginge Anvik
Direção de Arte: Marianne Bakke
Estreia: 19.08.2011
Duração: 72 min.

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