EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Monstro de Mil Cabeças



Mínimo Necessário

Impressiona como o diretor Rodrigo Plá utiliza apenas o mínimo necessário para tornar tão impactante a história de O Monstro de Mil Cabeças (México, 2015). Não que o enredo prime pelo ineditismo já que drama parecido fora mostrado em Um Ato de Coragem (EUA, 2002); destarte, o que torna o longa-metragem mexicano interessante é o método preciso e sucinto com o qual Plá mantém o espectador colado a cadeira enquanto a via-crúcis da protagonista se desenvolve na tela, senão vejamos:
- o cotidiano de dor do marido da personagem principal que preso a uma cama enfrenta uma doença que a passos largos o aproxima da morte é visto em breves segundos sem que seu calvário seja valorizado em demasia; assim, para Rodrigo Plá basta uma rápida menção de que o homem está enfermo para em seguida concentrar o foco no reflexo que tal realidade causa sobre sua família e em especial sobre a esposa que não tolera ficar estática, resignada perante as rejeições do plano de saúde ao pedido de custeio do tratamento necessário ao paciente;
- tal dinâmica é registrada com uso esparso de diálogos, sem narrações em voz over e sem desnecessárias cenas de eventuais atos preparatórios da mulher para concretização do plano por ela arquitetado para ‘convencer’ burocratas a autorizar o tratamento médico de seu consorte;
- trocando em miúdos, o público é arremessado sem muita preparação na trajetória de violência implementada pela protagonista contra aqueles que se recusaram a atender seu marido, daí, soar tão surpreendente e inebriada em raiva e desespero cada ocasião em que a mulher saca sua arma e prova sua disposição de fazer o que for preciso para alcançar seu objetivo;
- nesta toada, um exemplo do econômico modus operandi de Plá é encontrado na sequência em que Sonia Bonet (Jana Raluy)  vai até a casa do primeiro médico por ela abordado: de costas para a tela este avisa que não irá lhe atender por ter um compromisso importante dentro de pouco tempo, porém, não tarda a surgir em um canto do quadro um pequeno pedaço do braço de uma raquete de tênis na bolsa carregada pelo homem; dessa maneira, revelando apenas alguns centímetros de um objeto, Plá entrega o caráter daquele profissional e o quão insignificante para ele é o problema apresentado pela protagonista;
- no que tange as cenas de violência física, pontuais, cabe dizer que as mesmas acontecem na maior parte das vezes no espaço extracampo, sendo os sons, sombras e gestos parcialmente mostrados os responsáveis por agregar a carga de brutalidade exigida em tais momentos;
- por último, em meio a tudo o que fora relatado, permeiam ainda trechos de áudios captados durante o julgamento da personagem, evento que, em contrapartida, é mostrado somente durante os créditos finais mediante a utilização de imagens de circuito interno de câmeras de segurança; desse modo genial Rodrigo Plá faz de O Monstro de Mil Cabeças também um filme de tribunal muito sugerindo e quase nada mostrando, o que torna justificável e deveras acertada a opção pelo final semiaberto.
Vale acrescentar que o curioso design de produção a todo instante insere móveis e objetos frente aos personagens, o que somado a uma fotografia de tomadas não raro feitas entre vidraças e brechas traz a tona o signo das barreiras e obstáculos que separam os personagens, tal como visto, por exemplo, em Carol¹ e Santiago² (Brasil, 2007). Graças a tais metáforas, a um elenco impecável e a eleição de imagens e sons, como já dito, minimamente necessários à sustentação do suspense e dos sentimentos abordados é que O Monstro de Mil Cabeças se faz tão eficiente e, portanto, digno de toda atenção a ele conferida.
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1.     Leia mais sobre Carol em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/02/carol.html.
2.   Leia mais sobre Santiago em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/cabra-marcado-para-morrersantiago.html.

Ficha Técnica


Título Original: Un monstruo de mil cabezas

Direção: Rodrigo Plá

Roteiro: Laura Santullo

Elenco: Alejandra Cárdenas, Daniel Giménez Cacho, Emilio Echevarría, Francisco Barreiro, Harold Torres, Hugo Albores, Ivan Cortes, Jana Raluy, Marco Antonio Aguirre, Marisol Centeno, Noé Hernández, Sebastián Aguirre, Úrsula Pruneda, Veronica Falcón

Produção: Rodrigo Plá, Sandino Saravia Vinay

Fotografia: Odei Zabaleta

Montagem: Miguel Schverdfinger

Trilha Sonora: Jacobo Lieberman, Leonardo Heiblum

Estreia no Brasil: 04/08/2016

Duração: 74 min.

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