Personal Shopper



Kardecismo à Francesa

 Personal Shopper (França, 2016) é um filme estranho. E isso é bom. É bom ao passo em que provoca o espectador retirando-o da zona de conforto mediante uma experimentação de formatos na qual o filme de gênero deixa de ser um fim em si mesmo apresentando, ao invés das tradicionais respostas prontas que o caracterizam, questionamentos em aberto sobre vida após a morte que se por um lado propagam ideias defendidas pela doutrina espírita, por outro lado, na última e principal fala do roteiro, escancaram uma janela de plausibilidade a ser saudada sobretudo por aqueles que não comungam do flerte com o sobrenatural proposto pela obra que, nessa toada, pode, então, na medida do possível, passar a ser encarada como um thriller psicológico, a despeito de, como já dito, ocorrer ao longo de seu desenvolvimento uma deliberada quebra das fórmulas do filme de gênero.
Até que a mencionada pergunta final seja feita por Maureen (Kristen Stewart), a porção cética do público restará provavelmente incomodada com a insistência didática e, por isso, pouco fluída com que Olivier Assayas leva para as telas, com a ajuda do youtube, noções básicas e curiosidades em torno do espiritismo. Dentro deste contexto, a utilização também diegética de outras tecnologias de comunicação contemporâneas como skype e sms resultam melhor aproveitadas porque, sobretudo, dialogam não com fenômenos paranormais e sim com o viés dramático da trama voltado para questões como perda, solidão e falta de perspectiva; porém, atenção, isso não significa dizer que Assayas fracassa ao tratar da possível ocorrência de aparições fantasmagóricas para a protagonista, afinal, em tais instantes de suspense o diretor constrói sequências que arrepiam causando medo a partir de uma regra básica do terror: sugerir muito e mostra pouco¹, aspecto esse em que iluminação e ruídos são trabalhados em condições de igualdade a qualidade do desempenho de Kristen Stewart que apresenta quando necessário arroubos de desespero que chamam positivamente a atenção. Com efeito, a atriz que já havia entregue ótimos desempenhos em Corações Perdidos, On the Road e Acima das Nuvens pela primeira vez alcança notas igualmente altas enquanto protagonista, cabendo, por isso, destacar a boa condução de Assayas que adequa recursos dramáticos comumente usados por Stewart, como o ar de tédio e incômodo, à narrativa e, não satisfeito, a leva degraus acima garantindo-lhe novas possibilidades de usufruto de seu talento².
Personal Shopper pode até não ser o melhor trabalho de Assayas em razão de uma certa barriga do roteiro – o excesso de trocas de mensagens praticadas pela personagem principal e o já citado didatismo com que o espiritismo é abordado prejudicam por vezes o andamento da trama. Contudo, mesmo em meio a tais senões, a realização do cineasta é superior a muito do que é cinematograficamente produzido em larga escala de maneira padronizada, êxito esse que é resultado da correta postura de um artista nitidamente disposto a se arriscar por gêneros diferentes, entregando, desta feita, um experimento que não hesita em manejar coisas a princípio estranhas e, principalmente, causar desequilíbrio na plateia – a derradeira pergunta de Maureen que o diga.
_______________
1.“Na década de 1940, os horrores reais da Segunda Guerra Mundial tornaram os monstros do cinema inofensivos. Foi então que os suspenses produzidos por Val Lewton na RKO lançaram a premissa de que, no cinema, uma cena sugestiva pode ser muito mais assustadora do que o terror explícito” (BERGAN, Ronald. ... Ismos – Para Entender o Cinema. São Paulo: Globo, 2010. p. 40.
2.Ademais, Assayas explora a beleza da atriz, com certo quê voyeurístico é verdade, como nunca antes feito e sem fazer disso um ato banal tendo em vista que o culto a beleza – e a futilidade daí acarretada – é um elemento também relevante ao enredo.


Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Olivier Assayas
Produção: Charles Gillibert
Elenco: Kristen Stewart, Abigail Millar, Anders Danielsen Lie, Audrey Bonnet, Aurélia Petit, Benjamin Biolay, Benoit Peverelli, Dan Belhassen, David Bowles, Fabrice Reeves, Hammou Graïa, Khaled Rawahi, Lars Eidinger, Leo Haidar, Nora von Waldstätten, Pamela Betsy Cooper, Pascal Rambert, Sigrid Bouaziz, Ty Olwin
Fotografia: Yorick Le Saux
Montagem: Antoinette Boulat
Estreia: 09/03/2017 (Brasil)
Duração: 105 min.

Comentários

POSTS RECENTES MAIS LIDOS