EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years



Moldura Nova

Para fãs já iniciados uma conclusão resta inevitável: The Beatles – Eight Days a Week: The Touring Years (EUA, 2016), acrescenta poucas curiosidades e elementos históricos sobre a trajetória dos quatro rapazes de Liverpool. Considerando o que já fora explorado em livros e outros documentários semelhantes, fica a impressão de que o cineasta Ron Howard fez um trabalho sob encomenda voltado não a apresentar novidades para admiradores de longa data, mas sim a angariar novas gerações de entusiastas da banda e, com isso, dar novo passo na missão de perpetuação da imagem e obra dos fab four.

Embora nítido o viés mercadológico de uma produção que não se acanha em ser repetitiva, a condução de Howard merece elogios dada a eficiente capacidade de sintetizar um recorte da carreira do quarteto que não é pequeno, qual seja os dois primeiros terços de sua existência, época que condensa a formação da banda, os meses de trabalho em Hamburgo, ainda em 1960, o estouro da beatlemania e o período entre 1964 e 1966 no qual o grupo, já consagrado, se dedicou a fazer apresentações ao vivo inaugurando a tendência, ainda vigente, de realização de shows em estádios.
Nesta toada, são muitos os tópicos a serem explorados e Howard o faz a contento, ainda que isso signifique falar de maneira breve sobre certos assuntos, como a posição contrária a segregação racial demonstrada pelos artistas, ou até mesmo sacrificar determinados personagens historicamente cruciais seja falando pouquíssimo sobre eles – como ocorre com o empresário Brian Epstein e com o produtor musical George Martin – seja ignorando-os solenemente, vide o silêncio em torno dos ex-integrantes Pete Best e Stuart Sutcliffe. De qualquer modo, o trabalho de Howard é seguro² e ao seu término acaba deixando um gosto de quero mais no espectador³, circunstância essa que é fruto:
- da forma envolvente com que a falta de novidades é manipulada pelo diretor (por mais contraditório que isso possa soar);
- do principal período criativo do grupo, iniciado a partir da transição engendrada pelo álbum Revolver, não ter sido abordado, ficando de fora, portanto, os anos de psicodelia, flower power e conflitos internos que provocariam o precoce término dos Beatles.
Ademais, para não injustiçar a correta realização de Howard, algumas necessárias ponderações a seu favor cabem ser feitas:
a)      desde que abandonou os palcos e se focou nas engenhosas gravações nos estúdios Abbey Road, a banda passou a ter registros em vídeo rarefeitos, esparsos, o que explica o fato de as melhores histórias e relatos dessa fase serem encontrados, sobretudo, em livros, exceto, frise-se, pelo excepcional Let It Be¹ (Reino Unido, 1970) que até hoje é o documentário definitivo sobre os Beatles, graças a postura totalmente desinibida com que mostra as dissidências que não tardariam a separar os músicos;
b)      o boom da beatlemania sobre o qual o trabalho de Howard dedica boa parte de seu tempo também já havia recebido seu próprio e definitivo registro pelas mãos, novamente, dos próprios Beatles, através de Os Reis do Iê Iê Iê (A Hard Day’s Night, Reino Unido, 1964), misto de documentário e ficção que capturou com brilhantismo ímpar a alegria e inocência de uma época em que o humor nonsense daqueles jovens roqueiros ainda conseguia driblar o cansaço da estrada e a histeria aprisionadora dos fãs.
Dito isso, uma vez que superar tais registros é uma missão praticamente impossível, restou a Howard se contentar em criar uma moldura nova para uma tela que se por muitos já é conhecida poderá, por outro lado, ser descoberta ainda por tantos outros, o que, há de se convir, é um objetivo deveras louvável.
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1. Leia mais sobre Let It Be em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/09/let-it-be.html.
2. Daí, por exemplo, não haver hesitação de sua parte em inserir entrevistas desnecessárias, ainda que afetivas, com celebridades do cinema nem de encenar uma apresentação da banda e enxertar frames dessa reconstituição durante a narrativa, para o incômodo de fãs fervorosos e seus olhares clínicos
3. Aplacado pela excelente revitalização para o formato 4K das imagens e sons do histórico show no Shea Stadium mostrada nos cinemas após os créditos finais do documentário.

Ficha Técnica

Direção: Ron Howard
Roteiro: Mark Monroe
Produção: Brian Grazer, Nigel Sinclair, Ron Howard, Scott Pascucci
Fotografia: Caleb Deschanel, Jessica Young, Michael Wood, Tim Suhrstedt
Montagem: Paul Crowder
Trilha Sonora: Chris Wagner, Dan Pinnella, Ric Markmann
Estreia: 11.10.2016
Duração: 97 min.

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