EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 23 de janeiro de 2011

Iracema – Uma Transa Amazônica

A Perpetuidade da Obra de Arte

Apesar de vivermos a era dos industrializados e, por isso, desprovidos de personalidade, multiplex, a experiência a seguir relatada teve como cenário o mais antigo cinema de rua do país, qual seja o Cine Olympia¹. Hoje mantido pela iniciativa estatal, o Olympia agora empresta sua imensa tela para programações de cineclubes, além de eventos e festivais sobre a sétima arte, daí porque o filme Iracema – Uma Transa Amazônica (Brasil, 1974) fora ali projetado no último dia vinte e um para marcar o encerramento das atividades do I CINEMAZON - Encontro Acadêmico de Cinema e Audiovisual.
Tal momento, por certo, ficou marcado como uma ocasião histórica para quem ali compareceu, eis que, além da produção haver sido apresentada por um de seus diretores, Orlando Senna, também ali esteve presente Edna de Cássia a intérprete da prostituta que protagoniza o filme. Iracema, fora o único trabalho de atuação de Edna que, amedrontada pela censura imposta a obra pelo regime militar, tanto se recusou a repetir a experiência como também evitou, até poucos anos atrás, falar sobre a realização, preferindo, assim, voltar ao anonimato. Por isso, vê-la apresentando o filme ao lado de Orlando Senna representou um momento único e mágico no qual passado e presente se fundiram por completo.
Neste diapasão, a idade, por óbvio, deixou em ambos os rastros do tempo; quilos a mais, rostos mudados, colunas não mais tão eretas. Ali em frente aquela tela de cinema estavam testemunhas vivas da capacidade do tempo passar por nós enquanto seres humanos mas não para as obras de arte que, ao contrário, se perpetuam na história.
É certo que para quem reside em Belém salta aos olhos como certos pontos turísticos filmados em Iracema mudaram sobremaneira após quase quarenta anos, o que, entretanto, não deixa de ser uma curiosidade histórica muito específica para quem mora na cidade. Desta feita, o que na obra se destaca de maneira, infelizmente, atemporal é o conteúdo, qual seja a denúncia sócio-política sobre um país preocupado em modernizar-se, mas insensível as mazelas de seu povo.
Isto posto, a procissão do Círio de Nazaré é mostrada numa sequência metaforicamente hábil em retratar uma gente que, mesmo oprimida pelo Estado, mantém-se inabalável em sua crença, o que, se antes consistia num discurso de confronto a ditadura militar, hoje pode ser compreendido como um grito rebelde contra o caráter populista, inconseqüente e desrespeitoso do governo federal perante massas tão manipuladas e iludidas por quotas e bolsas.
A longevidade de Iracema, portanto, é ratificada em razão da capacidade de adequação do seu discurso no tempo, afinal, prostituição, trabalho escravo, desmatamento, grilagem, extração ilegal de madeira e improbidade administrativa são temas ainda presentes no cotidiano não só amazônida mas também nacional. Assim, se é comum a prática de revezamento entre os atores principais da novela, a população, na condição de eterna coadjuvante, permanece iletrada e deixada a própria sorte.
Desta feita, o longa-metragem ainda hoje representa um soco no estomago, seja por sua estética suja e próxima ao neo-realismo italiano – vide a fusão das linguagens documental e ficcional² – seja em virtude do angustiante reencontro de Iracema e Tião Brasil Grande, personagem de Paulo Cesar Pereio - ocasião em que a boca agora desdentada da prostituta indicará que as privações materiais por ela vividas foram capazes de lhe retirar não só a beleza mas também qualquer orgulho e honra, o que, todavia, não impede o desdém de Tião que, desse modo abandona novamente a mulher, executando com louvor o papel que é de direito das classes sociais hierarquicamente superiores.
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1.    Em abril do próximo ano ocorrerá o centenário do cinema
2.    “A produção se tornou um clássico não somente pelo forte conteúdo de denúncia, mas pela originalidade de sua linguagem. A inovação se deve principalmente ao fato de o roteiro criar sequências nas quais os atores se aproximam de pessoas reais sem deixar claro que se trata de uma encenação. Quando dialoga de improviso com Tião Brasil Grande, por exemplo, um madeireiro de verdade acredita que o personagem é mesmo um caminhoneiro do Sul e atribui a presença da câmera à realização de uma reportagem”. FONTE: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/cinema/iracema-transa-amazonica-classico-mes-517026.shtml

COTAÇÃO - ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica
Direção: Jorge Bodansky e Orlando Senna
Roteiro e Desenho de produção: Orlando Senna
Argumento: Jorge Bodanzky e Hermano Penna
Produção: Orlando Senna
Produtor associado: Wolfgang Gauer, Maku Alecar e Achim Tappen
Música e Fotografia: Jorge Bodanzky
Elenco: Edna Cássia, Paulo César Pereio, Conceição Senna, Rose Rodrigues, Fernando Neves
Som: Achim Tappen
Edição: Eva Grundman e Jorge Bodanzky
Duração: 90 min.
Curiosidades:
Proibido no Brasil desde sua realização, em 1974, Iracema foi exibido em diversos países da Europa durante os anos em que esquentou as prateleiras da Censura. O filme foi liberado sem cortes em 7 de novembro de 1979 por decisão do responsável pela Divisão da Censura, José Madeira. O filme foi lançado em circuito comercial no dia 30 de março de 1981.
Orlando Senna esteve responsável entre os anos de 2003 e 2007 pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura.

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