EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Separação/Cenas de um Casamento

                                 O Fim (?)

          A cena inicial de A Separação (Irã, 2011) remete imediatamente ao início de Cenas de um Casamento (Suécia, 1973). No primeiro exemplo o casal de protagonistas é entrevistado por um juiz acerca dos motivos que levaram um dos membros daquela relação a pedir divórcio, ao passo que no segundo caso marido e mulher recebem em sua casa jornalista que os interroga sobre a receita para manter casamento tão feliz quanto o deles.
         Dentro deste contexto, a produção iraniana anuncia de imediato que o rompimento dos laços fora concretizado, explorando adiante conseqüências e eventos advindos a partir deste término. Com efeito, a rotina dos seres retratados é ferozmente abalada por situações extraordinárias e por atos falhos cometidos em razão da necessidade, aspecto esse em que o diretor e roteirista Asghar Farhadi não perde tempo passando a mão na cabeça dos personagens, optando, ao contrário, por indicar que, em se tratando de relações humanas/familiares não existem, via de regra, heróis nem vilões mas apenas seres falíveis que não raro tropeçam perante as boas intenções e padecem face as conseqüências.
           Num crescendo, A Separação se revela um fabuloso retrato de pessoas que, não obstante ajudem umas as outras em razão dos frutos que as conectam, não mais possuem qualquer conexão espiritual/afetiva entre si. Tal resultado, vale dizer, é conquistado graças a:
- um roteiro deveras criativo em suas reviravoltas;
- um estudo comportamental minucioso que, apesar de fulcrado em experiências universais, é moldado conforme a realidade específica de um povo;
- um trabalho de direção suficientemente hábil para explorar o potencial da narrativa e o talento do elenco.
          Trilhando rumo diferente, Cenas de um Casamento testemunha o processo de deterioração de uma relação amorosa ao longo dos anos. Idas e vindas, saltos no tempo, reencontros frustrados, mudanças de comportamentos, descobertas tardias, mágoas acumuladas, são alguns dos elementos manejados por Igmar Bergman que, indo de encontro ao cenário desalentador por ele criado, concede um tratamento até otimista a seus personagens na medida em que estes se assumem não enquanto casal oficial e publicamente constituído, mas sim como pessoas que em meio a todas as desagradáveis surpresas trazidas pela vida, continuaram se amando ora de longe ora as escondidas - denotando, portanto, a possibilidade de um amor ser para sempre ainda que continuamente interrompido.
          Nesta toada, Bergman ignora por completo as filhas tidas pelo casal para, em compensação, direcionar seu foco tão somente para o interior daqueles dois adultos. Assim, se a prole não é um fator externo capaz de interferir ou influenciar seja no afastamento seja na reaproximação dos protagonistas do filme sueco, em A Separação a presença de uma filha serve apenas para retardar um fim que não terá remédio algum, sejam quais forem as decisões tomadas por quem quer que seja.

COTAÇÕES:
A Separação - ۞۞۞۞۞        
Cenas de um Casamento - ۞۞۞۞۞


Ficha Técnica – A Separação
Título Original: Fodaeiye Nader az Simin
Direção, Produção, Roteiro: Asghar Farhadi
Elenco: Leila Hatami (Simin)Sareh Bayat (Razieh)Peyman Moadi (Nader)Sarina Farhadi (Termeh)Babak Karimi (Interrogator)Ali-Asghar Shahbazi (Nader's Father)Shahab Hosseini (Hodjat)Merila Zare'i (Miss Ghahraii)Kimia Hosseini (Somayeh)Shirin Yazdanbakhsh (Simin's Mother)
Estreia no Brasil: 20.01. 2012           Estreia Mundial: 16.03.2011
Duração: 123 min.

Ficha Técnica – Cenas de um Casamento
Título Original: Scener ur ett Äktenskap
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman                 Produção: Lars-Owe Carlberg
Elenco: Liv Ullmann (Marianne)Erland Josephson (Johan)Bibi Andersson (Katarina)Jan Malmsjö (Peter)Gunnel Lindblom (Eva)Anita Wall (Palm)Barbro Hiort af Ornäs (Sra. Jacobi)Lena Bergman (Karin)Rossana Mariano (Eva - 12 anos)
Estreia no Brasil: 15.09.1974
Duração: 167 min.

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