EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 17 de abril de 2012

Jogos Vorazes

                                                Um Bom Começo

               O clímax de Taxi Driver (EUA, 1976) envolve a encenação de uma chacina. Em seu roteiro Paul Schrader sugeria o derramamento de litros de sangue rubro como forma de garantir impacto e verossimilhança a sequência. Mesmo não discordando de Schrader, o diretor Martin Scorcese esbarrou, porém, no veto do estúdio para a realização de tal composição cênica. A justificativa para tanto? Cenas extremamente chocantes poderiam acarretar uma classificação etária desastrosa para a produção.
              No intuito de se adaptar as exigências dos produtores sem ao mesmo tempo deixar de ser fiel as intenções do trabalho de seu roteirista, Scorcese e seu fotógrafo – Michael Chapman – tiveram de adotar uma espécie de terceira via, rodando a cena sob uma iluminação de tons quentes o que, somado a um sangue falso de cor marrom, tornou palatável, ainda que crua e amarga, a violência retratada na tela.
              Gary Ross deve ter enfrentado semelhante problema durante a realização de Jogos Vorazes (EUA, 2012), afinal, como garantir ao adolescente o direito de entrada no cinema para assistir um filme que – apesar de ter tal consumidor como alvo principal, desde sua fonte literária de origem¹ – envolve um espetáculo televisivo no qual jovens são mortos ao vivo e em rede nacional? Como, portanto, falar de violência e opressão sem necessariamente mostrá-las?
               A solução encontrada pelo cineasta, vale dizer, se funda em dois elementos basilares: mise-én-scène e técnica. Logo, para melhor retratar as agruras enfrentadas pela protagonista em sua terra natal, Ross adota um estilo documental, com planos sequências captados a partir de câmera na mão, sugerindo, desta feita, a instabilidade de uma sociedade abandonada a própria sorte. Durante os jogos, por outro lado, as mortes são vistas em meio a muitos cortes, hiper closes e velozes movimentos de câmera. Com efeito, sabemos das atrocidades cometidas, mas não obrigatoriamente as vemos em detalhes - o que talvez se revele um problema para aqueles que, ignorando as expectativas comerciais existentes em torno de um projeto como Jogos Vorazes, entenderem que este não seria o caso de camuflar mas sim escancarar a raiva e a brutalidade presentes entre os participantes da competição.
     Assim, ainda que diante de possíveis limitações hierárquicas, Ross entrega um trabalho correto quanto a capacidade de sugestão e envolvente no que tange a narrativa, isso porque:
- mantém o ânimo da platéia perante uma disputa de final previsível;
- não escorrega na sacarose, preservando a dúvida sobre o que há de verdadeiro ou falso no relacionamento afetivo dos protagonistas.
     Graças a habilidade do diretor², Jogos Vorazes supera seu irmão mais velho Battle Royale (Japão, 2000) no quesito contextualização da violência³, o que, contudo, não é o suficiente, tendo em vista que, apesar de ótimo divertimento, o longa-metragem desperdiça a oportunidade de alçar vôos mais altos ao deixar de também explorar questões como:
- o fascínio do homem pela crueldade;
- a invasão de privacidade praticada seja pela intervenção estatal (assunto, aliás, abordado em 1984) seja pela iniciativa privada através de seus reality shows (como, por exemplo, visto em O Show de Truman – O Show da Vida).
              De qualquer forma, mesmo que originalidade⁴ e ousadia não sejam as marcas de Jogos Vorazes – limitação última essa constatada, inclusive, no trabalho de direção de arte – resta claro que, em se tratando do primeiro volume de uma possível franquia cinematográfica, o filme de Ross até que sai do lugar comum ao se esgueirar em meio a reflexões sobre totalitarismo e desigualdade social, atitude essa que, por certo, já representa um bom começo.
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1. A trilogia literária criada por Suzanne Collins é dirigida “ao público adolescente, mas não só a ele (quase 30% de seus leitores estão na faixa dos 30 aos 44 anos), a literatura young adult foi o gênero literário que mais cresceu em 2011 nos Estados Unidos” (FONTE: Revista Veja. Ed. 2261. Ano 45. N° 12. São Paulo: Abril, 21.03. 2012. p.123).
2. Sim, grande parte do êxito de Ross se deve também a Jennifer Lawrence que novamente confirma seu carisma em um papel agora de conotações não só psicológicas mas, sobretudo, físicas e a Stanley Tucci iluminando a tela, como de costume, a cada aparição.
3. Battle Royale não passa de encenação aleatória de mortes e assassinatos amparada por um roteiro que de tão inverossímil em suas explicações gera ao filme uma total falta de sentido para sua existência.
4. Não bastasse a propagada semelhança para com Battle Royale, a autora Suzanne Collins não hesita em declarar que “a maior influência de Jogos Vorazes veio de sua admiração, na infância, pelo mito grego de Teseu e o Minotauro. Na lenda, o rei de Creta, após derrotar Atenas, ordena que, a cada nove anos, sete moças e sete rapazes atenienses sejam jogados no labirinto em que vive o monstro Minotauro [...] para ser devorado por ele. Numa dessas ocasiões, o herói ateniense se oferece para o sacrifício. E, graças a um novelo de linho [...] consegue orientar-se no labirinto  e matar o Minotauro” (FONTE: Revista Veja. Ed. 2261. Ano 45. N° 12. São Paulo: Abril, 21.03. 2012. p.122).




Ficha Técnica
Título Original: The Hunger Games
Direção: Gary Ross
Roteiro: Billy Ray, Suzanne Collins
Produção: Jon Kilik, Nina Jacobson
Elenco: Jennifer Lawrence (Katniss Everdeen)Jacqueline Emerson (Foxface)Woody Harrelson (Haymitch Abernathy)Stanley Tucci (Caesar Flickerman)Dayo Okeniyi (Thresh) Kalia Prescott, Donald Sutherland (President Snow)Wes Bentley (Seneca Crane)Leven Rambin (Glimmer)Willow Shields (Primrose Everdeen)Elizabeth Banks (Effie Trinket)Liam Hemsworth (Gale Hawthorne)Josh Hutcherson (Peeta Mellark)Alexander Ludwig (Cato)Isabelle Fuhrman (Clove)Paula Malcomson (Mrs. Everdeen)Lenny Kravitz (Cinna)Amandla Stenberg (Rue)
Estreia Mundial: 23 de Março de 2012
Duração: 142 min.

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