EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 29 de julho de 2012

Sentidos do Amor


Romance Apocalíptico

Uma pandemia de feições apocalípticas faz com que aos poucos os seres humanos percam sentidos como olfato, audição e visão. Em meio a um cenário tão perturbador será possível um sentimento nobre como o amor permanecer vivo diante do individualismo que emerge como nunca em nome da sobrevivência?
Ao buscar tal resposta Sentidos do Amor (Alemanha/Reino Unido, 2011) se revela como um formato diferente e, por isso, original de romance, gênero tão castigado pela repetitividade e pieguice de tantos realizadores. Neste sentido, é por ser, sobretudo, uma história de amor de fim dos tempos que o longa-metragem também há de ser afastado da comparação que a ele é comumente feita com Ensaio Sobre a Cegueira (Brasil/Japão/Canadá, 2008); afinal, inegável é o valor próprio do primeiro, resultado, vale dizer, de objetivos mais modestos e, por conseguinte, mais bem sucedidos do que aqueles vistos na obra de Fernando Meirelles¹.
Com efeito, merece destaque a direção de David Mackenzie seja pela criatividade com que simula o caos a partir de um recurso, a princípio, parco como a colagem de imagens reais e pré-registradas, seja pela eficiência com que mescla a linguagem documental das sequências supracitadas com uma toada poética visualizada tanto na moldura do trabalho de fotografia, quanto no conteúdo representado pela utilização inteligente de narração em voz over, seja, por fim, pela destreza com que conduz o elenco, quesito esse, aliás, no qual brilham as performances de Eva Green e Ewan McGregor. Juntos os atores tornam palpável a intimidade do casal de protagonistas, qualidade, convenhamos, crucial na elaboração de qualquer título do gênero.
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1.  Baseado em original de José Saramago, o filme de Meirelles investiga o rompimento de limites éticos e o afloramento de instintos animalescos em situações de extrema desordem.

Ficha Técnica
Título Original: Perfect Sense
Direção: David Mackenzie                 
Roteiro: Kim Fupz Aakeson     
Produção: Gillian Berrie, Malte Grunert
Elenco: Ewan McGregor, Eva Green, Connie Nielsen, James Watson, Ewen Bremner, Stephen Dillane, Denis Lawson, Alastair Mackenzie, Richard Mack, Adam Smith, Shabana Akhtar Bakhsh, Caroline Paterson, Malcolm Shields, Liz Strange, Duncan Airlie James.
Fotografia: Giles Nuttgens               Trilha Sonora: Max Richter
Estreia no Brasil: 30.01. 2011          Estreia Mundial: 24.01.2011
Duração: 92 min.
Grande Cena: Sequência final. A perda de mais um sentido, a recuperação de um sentimento.

Um comentário:

  1. Li a crítica sobre o "Na Estrada", mas gostei mais dessa aqui... me fez até gostar mais do filme! ;)

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