EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 7 de julho de 2013

O Ovo da Serpente



Bergman e a Guerra

Ascensão nazista e experiências científicas com seres humanos são temas vistos em O Ovo da Serpente (EUA/Alemanha, 1977). Em se tratando de um filme de Ingmar Bergman causa estranheza uma trama de assuntos tão abrangentes - cuja filmagem só fora viabilizada em função de ser essa uma superprodução bancada por um estúdio norte-americano de grande porte. Todavia, superado esse espanto, é possível perceber que embora não figure entre os grandes títulos do cineasta, o longa-metragem possui sim diversos méritos.

Dentro deste contexto, O Ovo da Serpente é uma espécie de cruzamento entre A Fita Branca (Áustria, França, Alemanha, Itália, 2009), sem a faceta metafórica deste, com Os Meninos do Brasil (EUA/Reino Unido, 1978), daí que, por conseguinte, a toada ensaística comum aos trabalhos de Bergman não é aqui percebida o que, por vezes, chega a ser um problema visto que determinadas situações pessoais que poderiam até ser mais exploradas como a atração sexual entre o casal de cunhados (interpretados por uma sempre competente Liv Ullmann e por um limitado David Carradine), são deixadas de lado para assim não camuflarem nem se sobreporem a problemáticas mais amplas.
Ante tal panorama prevalece uma pegada sombria, pesada que muito se adéqua ao momento histórico retratado do período entre guerras no qual Hitler inicialmente fracassaria em sua tentativa de golpe de Estado para mais tarde assumir o Terceiro Reich Alemão e guiar o país num processo esquizofrênico e megalomaníaco de recuperação da honra e do orgulho germânico feridos pela derrota na I Guerra Mundial e assinatura do Tratado de Versalhes.
Ao se debruçar por completo sobre essa questão Bergman revela novamente o excelente autor/escritor que era, agregando impacto ao filme sobretudo quando do discurso final de um médico nada incomodado com as implicações éticas da utilização de homens e mulheres em experimentos. Se antes o espectador já havia sido exposto a chocante sequência do coito fracassado entre um homossexual e uma prostituta – momento esse que pode até parecer aleatório na trama como um todo, mas que recupera o Bergman interessado nos conflitos íntimos, individuais – o encerramento do trabalho a partir da supracitada fala apresenta uma inquietante lógica para o surgimento do mal e da perversão. E, acredite, nada pode soar tão incômodo quanto a precisão do pessimismo de Bergman.

Ficha Técnica


Título Original: The Serpent´s Egg

Direção e Roteiro: Ingmar Bergman

Produção: Dino De Laurentiis

Fotografia: Sven Nykvist

Figurino: Charlotte Fleming

Elenco: Liv Ullmann, David Carradine, Heinz Bennent, Gert Fröbe, Edith Heerdegen, James Withmore

Duração: 120 min.

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