EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 3 de agosto de 2013

Depois de Maio



A Política e o Íntimo

Sim, Depois de Maio (França, 2012) é um filme político, porém, acima de tudo, é o retrato de um momento de transição em que de jovens idealistas adeptos a qualquer tipo de liberdade, passamos a ser “as pessoas da sala de jantar” cantadas pelos Mutantes, isto é, adultos responsáveis com empregos e/ou tarefas dignas de respeito – ainda que não desejadas – e capazes de pagar as contas ao fim do mês.
Dentro deste contexto, o título do longa-metragem se revela preciso na medida em que volta os olhos para o que ocorrera nos anos seguintes ao maio de 1968 e sua eclosão de revoltas. Para nós brasileiros a obra é até mais oportuna ao passo em que reflete nosso próprio e atual período de rebelião nas ruas da população, principalmente jovem, o que, no mínimo, demonstra que seja qual for o resultado e o legado do que experimentamos hoje, a História é e sempre será cíclica, tornando, portanto, a revolução uma utopia importante que jamais poderá ser considerada vã, porque necessária para alimentar o grito e o eco dos revoltosos.
Dito isso e voltando ao filme, vale frisar que em sendo o protagonista consideravelmente inspirado na figura do próprio diretor e roteirista Olivier Assayas², o que se vê na tela é uma abordagem íntima e escorreita dos assuntos, afinal jamais é possível perceber de sua parte saudosismo ou romantismo³ na retomada do cotidiano de um jovem em meio a rebeldia política do instante e a descoberta da liberdade sexual e da contracultura drogadita. Neste diapasão, o prazer e as consequências são delineados sem que a toada se torne sisuda, daí que extremamente feliz fora o cineasta Walter Salles ao declarar que: “Assayas filma a matéria política com leveza, sem pedagogismos ou nostalgia, o que confere uma qualidade rara a Depois de Maio” ⁴.
Por fim, merecem registro e elogios o trabalho de direção de arte simples e ao mesmo tempo certeiro, bem como o competentíssimo elenco.
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1.Olivier Assayas já havia abordado a década de 70 no elogiado projeto Carlos; segundo o cineasta, este último era “um filme sobre os anos 1970 do ponto de vista geopolítico. Senti falta de descrever aquele período de maneira mais íntima”, daí Depois de Maio ter sido realizado (Revista Preview. Ano 3. ed. 43. São Paulo: Sampa, Abril de 2013. p.32-3).
2. Segundo Walter Salles: “A raiz do filme é autobiográfica, baseada em um texto luminoso que Assayas escreveu, “Uma adolescência no pós-maio”, uma carta aberta para a viúva de Guy Debord — autor que influenciou profundamente o jovem Assayas” (FONTE: ‘Depois de Maio’, um filme apaixonante In http://oglobo.globo.com/cultura/depois-de-maio-um-filme-apaixonante-8254677#ixzz2avRSbPsh Acesso em 03.08.13). Neste passo, a sequência em que o protagonista faz seu primeiro estágio num estúdio de cinema faz parte da história de Olivier Assayas que assim confessa: “Essa parte é bem pessoal, de quando eu estava trabalhando em Pinewood, na Inglaterra, na equipe de montagem de Super-Homem. Estava lá quando rodaram o fim de Krypton! No estúdio ao lado, Kevin Connor estava fazendo filmes B malucos, com monstros e nazistas” (Revista Preview. Ano 3. ed. 43. São Paulo: Sampa, Abril de 2013. p. 33).
3. Em sentido parecido Mariane Morisawa conclui que “Assayas mostra tudo com pouco saudosismo, pelo contrário, com um olhar contemporâneo que aponta para a ingenuidade e questões pouco resolvidas como a desigualdade entre homens e mulheres. Acima de tudo, é uma obra moderna na forma de filmar, que oferece uma viagem àquele tempo” (Revista Preview. Ano 3. ed. 43. São Paulo: Sampa, Abril de 2013.  p.60). Por seu turno, Walter Salles complementa:Assayas filma a vibração desses anos de forma radicalmente contemporânea, a câmera solidária a seus personagens, escapando dos perigos de um “filme de época”. Não há exibicionismos, planos ou cenas desnecessários. [...] Não há, também, romantização de um momento em que só o futuro parecia interessar” (‘Depois de Maio’, um filme apaixonante In http://oglobo.globo.com/cultura/depois-de-maio-um-filme-apaixonante-8254677#ixzz2avRSbPsh Acesso em 03.08.13).
4.FONTE: ‘Depois de Maio’, um filme apaixonante In http://oglobo.globo.com/cultura/depois-de-maio-um-filme-apaixonante-8254677#ixzz2avRSbPsh Acesso em 03.08.13.
5.Aspecto esse em que Assayas assumira um enorme risco tendo em vista que, em busca de realismo, optara por trabalhar apenas com não atores, escolhidos enquanto o mesmo passeava pelas ruas da França, sendo que a única exceção neste sentido fora a atriz Lola Creton.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Après Mai
Direção e Roteiro: Olivier Assayas
Produção: Nathanael Karmitz
Elenco: Clément Métayer, Lola Creton, Félix Armand, Carole Combes, André Marcon, Léa Rougeron
Fotografia: Eric Gautier                 Edição: Luc Barnier
Estreia no Brasil: 26.04.13             Estreia Mundial: 19.09.12
Duração: 122 min.

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