EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Gosto de Cereja



Gosto de Jiló

É possível falar de um assunto dramático como o suicídio sem qualquer emoção? Em Gosto de Cereja (Irã/França, 1997) Abbas Kiarostami prova que sim, o que não necessariamente quer dizer que o resultado seja satisfatório.
Neste sentido, seja o potencial personagem suicida seja seus possíveis colaboradores na tarefa são mostrados de maneira fria, por um diretor que se mantém deliberadamente afastado de seus personagens, denotando, por conseguinte, uma relação de alteridade que se reflete no público que, incapaz de se envolver ou se identificar com quem quer que seja, ainda receba a árdua tarefa de enfrentar uma narrativa que pouco se renova.
Vagaroso, o trabalho de Kiarostami não almeja grandes plateias, intenção, aliás, materializada numa sequência final metalinguística que pouco acrescenta, mas que, por certo, satisfaz uma parcela minoritária que se anima com o puro e simples rompimento da distinção entre ficção e realidade e entre o cinema da montagem invisível e aquele que quebra a quarta parede escancarando sua presença e seu modus operandi.
Frise-se que não se trata aqui de discriminar toda e qualquer forma de afastamento do cinema perante aquilo que é rotineiro, comum; afinal, diretores como Federico Fellini eram mestres em diluir as fronteiras entre o real e o imaginário – vide o exemplo dado por este no ótimo Os Palhaços (Itália/França, 1971) – porque o faziam com beleza, leveza e poesia, o que não ocorre no caso de Gosto de Cereja porque a fissura proposta por Kiarostami resulta aleatória e desprovida de função e/ou sentimento. Neste passo, não é porque o cineasta se vale da geografia desértica de suas locações como metáfora representativa de um estado de espírito que será possível considerar este um trabalho tocante. É pouco para um tema tão delicado.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Ta'm e guilass
Direção, Produção, Roteiro e Montagem: Abbas Kiarostami
Elenco: Homayon Ershadi, Abdolrahman Bagheri, Afshin Khorshid Bakhtari, Safar-Ali Moradi, Mir-Hossein Noori, Ahmad Ansari, Hamid Masoumi, Elham Imani
Fotografia: Homayun Payvar.
Som: Jahangir Mirshekari.
Mixagem de som: Mohamadreza Delpak.
Estreia no Brasil:
26.12.1997
Duração: 95min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário