EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 11 de maio de 2014

Coutinho.doc - Apartamento 608

O Misantropo¹

Coutinho.doc - Apartamento 608 (Brasil, 2009) revela parte dos bastidores da filmagem de Edifício Master (Brasil, 2002) de Eduardo Coutinho a partir de registros feitos por membros da própria equipe técnica deste último. Dito isso, o filme por vezes funciona como um making of tardio dada a imponência de Coutinho determinando aqui e ali o que podia ou valia a pena a ser documentado; graças a essa postura, uma considerável parte do trabalho discorre apenas sobre as dificuldades encontradas pelo cineasta para encontrar matéria-prima, leia-se, gente com depoimentos suficientemente bons para um filme. Ocorre que tais percalços não são inéditos para quem conhece um pouco da trajetória profissional de Coutinho cujo método averso a pesquisas de pré-produção está ilustrado em cada uma de suas obras - encontrando talvez o mais arriscado exemplo em O Fim e o Princípio (Brasil, 2005) - razão pela qual Apartamento 608 ganharia em relevância caso versasse não só sobre o modus operandi como também sobre o homem por trás dele.
Neste sentido, são poucas as ocasiões nas quais o ser humano Eduardo Coutinho é descortinado; porém, na brevidade desses momentos é que Apartamento tem seu principal valor, na medida em que permite a constatação de que para alcançar seus objetivos o diretor precisava inevitavelmente tratar os eventuais entrevistados como objetos dotados ou carentes de pedigree consoante o peso de seus respectivos relatos. Com efeito, a frieza de tal classificação, cabe ponderar, se estendia até o instante em que o documentarista ficava frente a frente com os selecionados, afinal, durante as entrevistas Coutinho sempre fora comprometido com a ética, o que, em última instância, garantia a individualidade e a integridade da imagem e da fala de cada um.
Já no que tange o antes e o depois do ato de entrevistar, Apartamento rapidamente mostra um traço da personalidade de Coutinho que provavelmente nem todos conheciam: a misantropia. A partir da confissão: "Eu não gosto das pessoas em geral, não me interesso. Quero uma hora com elas, não a vida inteira", é possível especular que em sua compreensão o lado bom e/ou a faceta positiva e interessante de uma pessoa possui um curto prazo de validade. 60 minutos e nada mais.
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1.  Publicação em homenagem a Eduardo Coutinho que se vivo estivesse nessa data completaria 81 anos de vida. Descanse em paz.

Ficha Técnica


Direção, Fotografia e Som: Beth Formaginni

Edição: Ricardo Miranda, Joanna Collier

Duração: 51 min.

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