EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Getúlio



Sessenta Anos Depois, Ainda Somos os Mesmos...

Reconheçamos: Getúlio (Brasil, 2014) é um projeto corajoso em termos comerciais, visto ser um drama político lançado com pompa numa terra onde a esmagadora maioria das produções nacionais chanceladas pelo público é composta por comédias de gosto duvidoso. Neste sentido, por mais discutível que seja a escalação de um rosto conhecido como o de Tony Ramos para encarnar o controverso presidente Vargas, revela-se imperioso quanto ao retorno do investimento a presença de alguém querido o bastante para estimular a ida das pessoas ao cinema, afinal, não bastasse ser carente de piadas, o filme ainda enfrenta a resistência advinda da amnésia que uns experimentam e do estado de ignorância ao qual outros são mantidos ou optam por desfrutar acerca dos eventos ocorridos neste país.
Realizadas as devidas considerações e elogios quanto ao empenho de produtores em levar para as telas um naco tão relevante da história do Brasil – o que, no mínimo colabora para diversificar o que se tem filmado por aqui – cabe ponderar que em não sendo este um retrato abrangente da trajetória de Getúlio Vargas no poder, mas apenas um fragmento em torno dos dezenove dias que antecederam sua morte, a faceta ditatorial do presidente manifestada durante o Estado Novo é citada como uma mera nota de rodapé, o que denota parcialidade e admiração do longa-metragem pela figura pública.
Uma vez chapa branca, o filme evita polêmicas preferindo, desta feita, tratar Vargas como um homem que na velhice flertava com a redenção, pensamento esse atestado na seguinte fala de Tony Ramos: “Ele foi um ditador, e truculento, mas no final da vida, naqueles 19 dias, era outro”¹. Desse modo, a ambiguidade que envolvia Getúlio e sua relação com um povo que, mesmo após submetido a sua ditadura, o elegera democraticamente anos depois para o exercício de um novo governo, não é vista ou percebida, assim como pouco se fala de importantes itens de seu legado aos brasileiros, qual seja a instituição dos direitos dos trabalhadores mediante a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho, bem como a materialização de um empreendimento então compreendido como insensato, qual seja a hoje tão achincalhada e saqueada Petrobrás.
Em sendo um recorte, Getúlio acerta ao enveredar pela toada do thriller, das intrigas palacianas, comportando-se, portanto, como o tradicional filme de bastidores políticos² - daí a as filmagens terem ocorrido de forma praticamente integral no interior do Palácio do Catete, locação essa que facilitara o processo de reconstituição de época driblando, por conseguinte, eventuais restrições orçamentárias. Ressalve-se, todavia, que independentemente dos caminhos percorridos pelo roteiro, do viés estético no qual a história fora encaixada e das virtudes técnicas da produção cinematográfica, o principal valor de Getúlio provem da reflexão que o filme provoca acerca das turbulências de ontem que parecem querer se repetir hoje.
Não obstante a opressão que um dia Vargas instaurara sobre o país, a queda de braço por ele travada contra os militares durante os últimos meses de seu mandato e, sobretudo, seu suicídio atrasaram por uma década o golpe militar que inauguraria no Brasil os anos de chumbo, conforme conclui Tancredo Neves em frase transcrita ao término do filme. Com efeito, parece perda de tempo especular sobre a real intenção de Getúlio ao ceifar a vida: não ceder aos anseios dos muitos que pediam sua renúncia em razão de uma egocêntrica vontade de preferir a glória ao invés de enfrentar um fim de existência que insistia em macular seu nome e sua história ou, ao contrário, visando o bem do país, desmoralizar as forças opositoras com um golpe tão duro que colocaria toda uma nação de encontro aquelas? Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: Getúlio não abriu mão de sua honra, o que, em última instância, demonstrou que seu suposto desconhecimento acerca dos atos de corrupção e de criminalidade praticados por aliados durante seu último mandato parecia legítimo, ao menos no que tange o atentado a seu inimigo público número um Carlos Lacerda, na medida em que o estrategista nele presente dificilmente permitiria a prática de ato tão estúpido³.
Por ser a passagem de Vargas pelo Poder Executivo um capítulo ainda recente da História do Brasil, não houve ainda tempo suficiente para que o currículo ditatorial do político fosse ignorado e o homem mitificado. Simultaneamente tal proximidade temporal mostra o quanto o Brasil de 1954 se confunde com o de 2014, considerando que continuamos testemunhando as instituições serem banalizadas pela corrupção e pela criminalidade ao nível extremo de cidadãos passarem a pregar a favor de algo que parecia impensável anos atrás: a volta do regime militar.  Não a toa, o diretor João Jardim “brinca que Getúlio é tão atual que outro dia se assustou com a manchete ‘Vargas pressionado para se afastar do cargo’ em referência ao deputado federal André Vargas.
A insatisfação de hoje é semelhante ou até superior a de sessenta anos atrás; equivocados, contudo, são aqueles que apóiam qualquer forma de limitação da democracia como remédio. Esquecem eles que a supressão das liberdades individuais de toda uma população é uma resposta desproporcional e ineficaz contra a calhordice de algumas centenas. Resgatar a honra e o respeito a República já é um considerável passo rumo a melhoria do país. O ato de imolação de Getúlio Vargas, conscientemente ou não, assim demonstrara.
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1. FONTE: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,getulio-promete-ser-o-thriller-do-ano,1154645,0.htm . Acesso em 26.05.14.
2. Ao modo do que fora feito, por exemplo, em 13 Dias que Abalaram o Mundo (EUA, 2000), drama que retratou a crise dos mísseis de Cuba.
3. Vale dizer ser aquele um tempo em que as traições eram genuínas ao passo em que a oposição de fato existia, atuando sem cansaço na missão de deposição de um presidente. Nenhuma semelhança, portanto, se vislumbra para com o metalúrgico que décadas mais tarde subornara toda uma classe política em prol de um projeto particular de poder e que ainda hoje afirma nada ter ocorrido neste sentido. Tão cretina e cínica quanto sua alegação de desconhecimento dos fatos, vale dizer, fora sua recente declaração de que os braços fortes de outrora nunca foram pessoas de sua confiança.
4. FONTE: Revista Preview. São Paulo: Sampa, maio de 2014. Ano 5. Ed. 56. p. 44.

FICHA TÉCNICA

Direção: João Jardim
Roteiro: George Moura, João Jardim
Elenco: Tony Ramos, Alexandre Borges, Drica Moraes, Thiago Justino, Adriano Garib, Michel Bercovitch, Alexandre Nero, Marcelo Médici, Leonardo Medeiros
Duração: 100 min.

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