EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Passado



Discípulo de Ozu

Não é exagero ver Asghar Farhadi como o Yasujiro Ozu deste novo século de cinema, afinal, tal como o mestre japonês, o cineasta iraniano privilegia em seus enredos as complexidades das relações, sobretudo, familiares a partir de pontos de partida que de imediato podem parecer simples, mas que na verdade proporcionam verdadeiros mergulhos em emaranhados de conflitos e dilemas. Dentro deste contexto, O Passado (França/Itália/Irã, 2013), trabalho mais recente de Farhadi, denota outra semelhança deste para com Ozu, qual seja naturalidade com que revisita temas já tratados – neste caso a separação de um casal – de maneira, porém, inovadora, explorando, assim, novas perspectivas de um mesmo assunto.
No que tange o artista iraniano um elemento extra se destaca em meio aos seus textos: a eficiência com que elenca, sem tecer julgamentos, uma sucessão de revelações comprometedoras acerca dos personagens por ele criados, aspecto esse que faz de O Passado uma experiência tão envolvente ainda que não tão impactante quanto o anterior A Separação¹ (Irã, 2011). Aliás, de acordo com Pierre Murat: “Desde ‘A Separação’, Asghar Farhadi consegue uma osmose rara: estar constantemente na crista dos sentimentos, sem nunca cair na insipidez nem ficar pesado”², tal êxito – que também funciona como marca registrada dos títulos de Ozu³ – é produto da escrita apurada de um diretor, cujas obras desprezam o virtuosismo em benefício de uma ampla comunicação com o público fruto da narrativa honesta e com afinco de dramas do cotidiano de todos nós, método que desemboca numa aparente facilidade com que o cineasta transforma palavras, emoções e sentimentos em imagens – no que se inclui uma inconteste desenvoltura no trato com atores que nunca são menos que ótimos em cada cena destacando-se, ressalte-se, Ali Mosaffa em especial, dado todo o abatimento que em seu semblante vai sendo percebido conforme a história se desenvolve.
__________
1.Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.
2.FONTE: http://television.telerama.fr/tele/films/le-passe,50192584,critique.php. Acesso em 18.06.14.
3.Leia mais sobre Yasujiro Ozu em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/07/bom-dia.html, setimacritica.blogspot.com.br/2010/06/pai-e-filha.html, e http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/06/era-uma-vez-em-toquio.html

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Passé
Direção e Roteiro: Asghar Farhadi
Produção: Alexandre Mallet-Guy
Elenco: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet, Elyes Aguis, Babak Karimi, Sabrina Ouazani, Valeria Cavalli, Jeanne Jestin, Eleonora Marino, Aleksandra Klebanska
Estreia no Brasil: 08.05.14
Duração: 131 min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário