EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 11 de novembro de 2014

Leonera



A Maternidade e o Cárcere

Leonera (Argentina/Brasil/Coréia do Sul, 2008) se insere no filão dos filmes de prisão, porém, em sendo um exemplar do cinema argentino e seu brilhantismo, o título foge ao óbvio e ao já visto em tantas outras produções do gênero, garantindo para si o selo de qualidade típico das criações fílmicas dos hermanos.
Neste sentido, o trabalho de Pablo Trapero agrega frescor a uma fórmula já muito utilizada na medida em que redireciona quesitos vitais das narrativas ambientadas em presídios. Assim, tem-se de tradicional a trajetória que se inicia com o encarceramento, passa pelo processo de embrutecimento acarretado pela clausura e culmina na execução do plano de fuga. Todavia, sai de cena o presidiário enquanto figura masculina trancafiado numa cela junto a colegas de igual ou superior periculosidade para dar lugar a uma protagonista grávida mantida num pavilhão onde as presas são mães que cumprem pena junto a seus filhos menores de quatro anos. Tal cenário por si só chama a atenção ao passo em que se trata de uma realidade distante e não imaginada pelo grande público, eis que pouco ou quase nunca até então retratada num filme de ficção.
À curiosidade despertada por tal ambiência e por tais pessoas se soma a habilidade de Trapero para contar a história com objetividade sem resvalar no sentimentalismo nem soar piegas ou partidário, mérito obtido em razão de não interessar para o cineasta discutir, além do estritamente necessário, o que levou a personagem principal ao cárcere nem investigar se ela possui ou não culpa para tanto. Dentro deste contexto, o que importa para Trapero é explorar as relações interpessoais estabelecidas entre as presidiárias, a mudança de comportamento que experimentam a partir da reclusão e a devastadora separação de seus filhos sofrida quando estes completam a idade máxima para com elas permanecerem no pavilhão carcerário.
Alia-se ainda a exitosa forma com que Trapero conduz a narrativa o talento de Martina Gusman que numa irretocável atuação encara um papel dificílimo sem jamais cometer qualquer deslize. A junção de Trapero e Gusman representa para o atual cinema argentino uma parceria de importância tão grande quanto as dobradinhas de Juan José Campanella e Ricardo Darín – vide, por exemplo, o ótimo Abutres (Argentina, 2010) no qual este último também atua.

FICHA TÉCNICA


Direção: Pablo Trapero

Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero

Produção: Pablo Trapero, Youngjoo Suh

Elenco: Elli Medeiros, Laura Garcia, Leonardo Sauma, Martina Gusman, Rodrigo Santoro, Tomás Plotinsky

Direção de fotografia e Câmera: Guillermo Nieto

Direção de som: Frederico Esquerro

Direção de Arte: Coca Oderigo

Figurino: Marisa Urruti

Montagem: Ezequiel Borovinsky e Pablo Trapero

Estreia: 29.05.2008              Estreia no Brasil: 07.11.2008

Duração: 113 min.

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