EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

The Lunchbox



As Aparências Enganam

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto
desencontro pela vida” (Vinicius de Moraes)


Ao contrário do que aparenta ser, The Lunchbox (Alemanha / França / Índia / EUA, 2013) é um filme de desencontros, de romances perdidos pelo caminho¹. Por mais que na superfície trate da redescoberta do amor, o que o longa-metragem se esmera em paulatinamente fazer é um retrato da solidão somada ao medo acarretado pela chegada da velhice – aspecto último esse que, frise-se, representa o principal achado do roteiro.
Com efeito, saltam aos olhos os contrastes utilizados pela obra para alcançar seus objetivos, por exemplo:
- os personagens são solitários em meio a uma cidade que há tempos eclodiu demograficamente,
- Irrfan Khan, em momento algum aparenta ter a idade avançada do ser que interpreta.
Eis detalhes que numa análise precipitada podem ser mal compreendidos, mas que na verdade se alinham a intenção mater da produção, qual seja revelar uma essência diversa das aparências, driblando assim expectativas e escapando da previsibilidade – ainda que por vezes a narrativa ameace se tornar repetitiva.
Talvez o título peque por não conseguir garantir a personagem feminina semelhante carga de relevância existente em torno do protagonista masculino, daí aquela acabar servido de escada para este; contudo, esse é o tipo de problema que não detém o poder de desmerecer o conjunto de uma obra cujas virtudes são muito maiores na medida em que não se contenta com a mesmice optando por explorar assuntos estranhos ao romance enquanto gênero cinematográfico.
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1. Daí sua conclusão em aberto.

FICHA TÉCNICA

Título original: Dabba
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Ritesh Batra, Rutvik Oza
Elenco: Irrfan Khan, Nawazuddin Siddiqui, Nimrat Kaur, Denzil Smith, Bharati Achrekar
Produção: Anurag Kashyap, Guneet Monga, Arun Rangachari
Fotografia: Michael Simmonds
Edição: John F. Lyons
Estreia no Brasil: 28.02.14
Duração: 104 min.

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