EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 25 de agosto de 2015

Na Próxima, Acerto no Coração



Sem Justificativas

Na Próxima, Acerto no Coração (França, 2014) possui um mote que muito lembra o seriado Dexter, qual seja o acompanhamento da trajetória de um policial que nas horas vagas atua como um serial Killer. Baseada numa história verídica, a produção francesa, diferentemente do programa televisivo americano, não comete o equívoco de tentar justificar a conduta sociopata de seu protagonista; desse modo, enquanto Dexter é mostrado como um assassino – cuja infância fora marcada pela violência – que escolhe por vítimas apenas outros criminosos – numa espécie de milícia de homem só que perigosamente busca a conivência do público – a história do tira francês praticamente não apresenta nenhuma justificativa para as mortes providenciadas por aquele que, por seu turno, tem como alvo apenas jovens mulheres.
Neste sentido, o filme europeu acerta ao mostrar a dificuldade do personagem em estabelecer relação de afeto com uma figura feminina, o que pode até sugerir que sua aversão ao sexo oposto seja fruto de uma homossexualidade reprimida, embora tal raciocínio não passe de especulação, tendo em vista que o diretor Cédric Anger se empenha em deixar em aberto as motivações do matador para que seus atos soem ainda mais caóticos. Com efeito, o comportamento gélido do personagem se coaduna com a elegante estética de tons frios da obra, no que se incluem as ótimas direções de fotografia e de arte, bem como com o desempenho de Guillaume Canet o qual entrega com inegável talento as múltiplas nuances de um homem solitário, vil e implacavelmente cruel.
Na Próxima, Acerto no Coração consegue ser bruto e cru sem estardalhaço, eis que consiste num suspense psicológico pouco interessado em enigmas, falas marcantes e/ou jogos de gato e rato; em contrapartida, o longa-metragem prefere explorar, sem pretensas explicações, a mente de um psicopata e seu modus operandi, tarefa essa desempenhada com eficiência em meio a sua suposta simplicidade.

FICHA TÉCNICA

Título Original: La Prochaine fois je viserai le coeur
Direção e Roteiro: Cédric Anger
Elenco: Alexandre Carrière, Alice de Lencquesaing, Ana Girardot, Arnaud Henriet, Arthur Dujardin, Douglas Attal, Franck Andrieux, François-Dominique Blin, Guillaume Canet, Hélène Vauquois, Jean-Paul Comart, Jean-Yves Berteloot, Michel Cassagne, Patrick Azam, Pierick Tournier
Produção: Alain Attal, Anne Rapczyk
Fotografia: Thomas Hardmeier
Montador: Julien Leloup
Trilha Sonora: Grégoire Hetzel
Estreia Brasil: 13/08/2015
Duração: 111 min. 

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