EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Sal da Terra / Revelando Sebastião Salgado



Olhares

Revelando Sebastião Salgado (Brasil, 2012) e O Sal da Terra (Brasil/França/Itália, 20014) são obras bastante parecidas e ao mesmo tempo consideravelmente distintas uma da outra. Na verdade, o primeiro título serve de esboço para o documentário de Win Wenders seja por conta das nítidas diferenças orçamentárias entre um filme e outro seja porque o cineasta alemão junto com o codiretor Juliano Ribeiro Salgado evita, na medida do possível, repetir temas já abordados no trabalho de Betse De Paula, aprofundando-se, por conseguinte, em assuntos pouco explorados naquele. Já no que atine aquilo que existe de comum entre os dois, além, é lógico, do biografado, há sobretudo o enorme prazer demonstrado por este ao contar as histórias por trás de suas icônicas fotografias e de suas viagens aos cantos mais remotos do planeta.

Por seu turno, Revelando Sebastião Salgado se passa quase integralmente no interior do apartamento do fotógrafo em Paris – o que, convenhamos, denota os poucos recursos da empreitada – local onde ele tece comentários sobre os livros lançados e acerca da sua trajetória de vida e de carreira – no que se destaca um assunto tabu, qual seja o flagrante do atentado ao então presidente Ronald Reagan. Sabedora de que a simples entrevista resultaria cansativa ao espectador, Betse De Paula, no afã de ilustrar o depoimento, insere ao longo do mesmo registros fotográficos e uma incômoda espécie de sonoplastia que infantiliza o relato. Desse modo, a documentarista faz um apanhado da figura do fotógrafo e do homem Sebastião Salgado de maneira abrangente e até escorreita – apesar das limitações supracitadas, bem como da malfadada edição sonora – que não chega, entretanto, a comover, mérito esse, de outro lado, alcançado por Win Wenders que logra o êxito de deixar a platéia aturdida com as imagens captadas pelo fotógrafo tal como almejado por este.
Tamanho resultado positivo de O Sal da Terra, vale dizer, se deve a ambientação dada ao depoimento – não raro o que se vê é apenas o rosto de Salgado circundado por um fundo negro, daí ser maior a imersão da plateia na sua fala – bem como às filmagens feitas durante algumas de suas viagens, o que possibilita uma melhor compreensão do quão trabalhoso, complexo e solitário é o seu ofício. Como dito, toda a reação pretendida pelo fotógrafo ante seus registros é sentida pelo espectador que, ao término da sessão de O Sal da Terra, resta tão angustiado quanto maravilhado com o que vira, êxito esse deveras facilitado pelo trabalho de Win Wenders que, além da contextualização das fotografias, ainda encontra tempo e espaço no filme para tratar da criação do Instituto Terra por parte de Salgado e sua mulher Lélia – tal abordagem, frise-se, poderia facilmente fazer o longa-metragem perder seu foco, equívoco que felizmente não acontece em razão de Wenders arquitetar o correto e necessário link entre a inauguração do espaço e o Projeto Gênesis¹ preservando, assim, a coesão do documentário.

Muitos afirmaram que O Sal da Terra não explorara a contento a conturbada relação de Salgado com seu filho, o codiretor Juliano Ribeiro. Todavia, ao que parece em momento algum a intenção de Wenders fora se debruçar sobre tal drama familiar, daí optar por apenas mencionar que: sim, a carreira do fotógrafo lhe exigiu sacrifícios consideráveis dentre os quais permanecer temporadas longe da família talvez tenha sido o maior. Dessa maneira, Wenders jamais faz da relação pai e filho o foco primordial da produção, demonstrando, portanto, respeito para com aqueles, além de inteligência quanto a eleição daquilo que de fato importa: a carreira e o talento de Sebastião Salgado, sendo os reflexos positivos e negativos destes mantidos como subtemas, o que dribla, por exemplo, a possibilidade do documentário resvalar num novelão familiar.
Curiosamente, embora Wenders não demonstre acanhamento ao se lançar como um personagem do documentário na medida em que já o inicia explicando o porquê de sua fascinação pelo trabalho de Salgado, o codiretor Juliano Salgado tem uma participação bem mais discreta em O Sal da Terra – o que reforça os argumentos daqueles que pretendiam ver na tela os mencionados problemas familiares. Neste sentido, maiores impressões de Juliano sobre o pai podem ser vistas em Revelando Sebastião Salgado, cujo roteiro é assinado pelo mesmo em conjunto com Betse De Paula. Como dito alhures, aquilo que um filme fez o outro evita repetir, motivo pelo qual se complementam em meio as suas enormes semelhanças e diferenças.
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1.Expedição de Sebastião Salgado que teve como meta registrar regiões e civilizações longínquas ainda inexploradas.

FICHA TÉCNICA – O SAL DA TERRA

Título Original: Le Sel de La Terre, 2014
Direção: Juliano Ribeiro Salgado, Win Wenders
Roteiro: Camille Delafon, David Rosier
Produção: David Rosier
Fotografia: Hugo Barbier, Juliano Ribeiro Salgado
Montagem: Maxine Goedicke, Rob Myers
Trilha Sonora: Laurent Petitgand
Estreia: 26/03/2015 (Brasil)
Duração: 110 min.

FICHA TÉCNICA – Revelando Sebastião Salgado

Direção: Betse De Paula
Roteiro: Betse De Paula, Juliano Salgado
Produção: Patrícia Chamon
Fotografia: ABC, Jacques Cheuiche
Montagem: Dominique Pâris
Trilha Sonora: Naná Vasconcelos
Duração: 75 min.

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