EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Julgamento de Viviane Amsalem / A Separação



Bom Para Todos

Há quem aponte O Julgamento de Viviane Amsalem (Israel/Alemanha/ França, 2014) como um novo A Separação (Irã, 2011), oscarizado trabalho de Asghar Farhadi. Contudo, ainda que ambos os filmes discorram sobre términos de matrimônio, a comparação é reducionista uma vez que as diferenças entre os dois são deveras salientes. Assim, se no caso do primeiro título a protagonista Viviane esbarra na objeção de seu marido quanto ao divórcio, na produção iraniana a mulher recebe de imediato a anuência do consorte perante sua intenção de pôr fim à relação - ficando pendente nesse contexto apenas a questão da guarda da filha.  

Desta feita, A Separação aborda não o rompimento em si, já que este se mostra incontroverso, mas sim as consequências catastróficas advindas a partir dele para os envolvidos, viés esse que serve para levantar uma interessante reflexão: a decisão de largar tudo em prol de uma melhor qualidade de vida, como feito pela esposa, configura um ato de liberdade ou de egoísmo?
Por seu turno, O Julgamento de Viviane Amsalem tem por foco preponderante a própria separação na medida em que a personagem principal tem a vida estancada por anos graças a recusa do marido em deixá-la seguir longe dele. Para Viviane não há dia seguinte nem eventos trágicos posteriores, mas sim a clausura de viver submetida a uma relação falida e não poder experimentar a liberdade almejada em decorrência dos preceitos religiosos de uma sociedade patriarcal na qual o laicismo é uma utopia, daí sua ação de divórcio ser julgada em um tribunal rabínico que macula o ordenamento jurídico através de procedimentos nos quais a ciência do Direito cede espaço a religião.
Indo além nas particularidades que diferenciam as obras, A Separação possui um roteiro muitíssimo bem amarrado no qual, como outrora mencionado, uma sucessão de ocorrências graves, não raro influenciados pelos ditames do Alcorão, forçam o encontro dos personagens em locais diversos - no que se incluem suas residências, uma delegacia, um hospital, um colégio e a sede local do Poder Judiciário - numa espiral dramática em que os seres que dela fazem parte ultrapassam a fronteira da racionalidade e até da honestidade manipulando a verdade em atenção ao seu instinto de preservação e em decorrência de sua natureza humana e, por conseguinte, falha. Já em Viviane Amsalem impressiona a forma veemente com que um argumento curto sustenta o filme ao longo de duas horas; os personagens, nesse sentido, são vistos praticamente em tempo integral entre as quatro paredes de uma sala de audiência numa eficiente alusão a prisão que se tornara a vida da mulher que ousara romper o sacramento do casamento “apenas” por não mais sentir afeto pelo companheiro, estratégia narrativa essa que poderia soar tediosa e que assim não se comporta em razão do ótimo desenvolvimento das problemáticas inerentes e impeditivas da homologação do divórcio, bem como a forma com que sem artificialismos são delineados os comportamentos das figuras retratadas: os homens são em grande parte frios e indiferentes a demanda feminina enquanto as mulheres, sejam elas condicionadas ou não a humilhação de permanecer subservientes a vontade de seus senhores e do Estado que assim as manipula, são retratadas sem vitimismo, ainda que com maior dose de emoção. A partir de recursos mínimos O Julgamento de Viviane Amsalem se impõe como um poderoso libelo feminista em defesa de mulheres vilipendiadas em suas vontades, sendo assim um colosso na luta contra a misoginia e a opressão masculina silenciosa ou estridente.
Destarte, tais produções entregam variações de um tema em comum, podendo servirem de complemento uma para a outra conforme a interpretação e o desejo do espectador. Seja como for, o que não é correto, porém, é a comparação barata das obras como se pudessem ser confundidas, afinal, cada uma possui objetivos particulares e raios de ação próprios, o que, por óbvio, é bom para todos e, principalmente, para o cinema.
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1.Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.

FICHA TÉCNICA - O Julgamento de Viviane Amsalem

Direção e Roteiro: Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz
Elenco: Abraham Celektar, Albert Iluz, Dalia Beger, David Ohayon, Eli Gornstein, Evelin Hagoel, Gabi Amrani, Keren Mor, Menashe Noy, Rami Danon, Roberto Pollack, Ronit Elkabetz, Sasson Gabai, Shmil Ben Ari, Simon Abkarian
Produção: Denis Carot, Marie Masmonteil, Sandrine Brauer, Shlomi Elkabetz
Fotografia: Jeanne Lapoirie
Montador: Joel Alexis
Trilha Sonora: Bassel Hallak
Estreia: 20/08/2015 (Brasil)
Duração: 115 min.

FICHA TÉCNICA – A SEPARAÇÃO

Direção, Roteiro e Produção: Asghar Farhadi
Elenco: Ali-Asghar Shahbazi, Babak Karimi, Kimia Hosseini, Leila Hatami, Merila Zarei ED Hayedeh Safiyari, Peyman Moadi, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Shahab Hosseini, Shirin Yazdanbakhsh
Fotografia: Mahmoud Kalari
Estreia: 20/01/2012 (Brasil)
Duração: 123 min.

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