EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Regresso



Reunião Exitosa

O Regresso (EUA, 2015) reúne o melhor de dois mundos presentes na filmografia de Alejandro González Iñárritu, uma vez que alia com perfeição o seu fascínio pela desgraça – vista de forma recorrente em obras como Biutiful (Espanha, 2010), 21 Gramas (EUA, 2003) e Amores Brutos (México, 2000) – ao dinamismo da linguagem clássica do cinema norte-americano, aspecto último esse que ganha contornos ainda mais nítidos por tratar o filme em seu enredo de Hugh Glass, um caçador de peles cuja vida marcara por agruras o habilitou a se tornar uma lenda do folclore estadunidense.

Com efeito, para narrar a impressionante história de Glass que, em 1823, mesmo abandonado na natureza selvagem com parcas condições de saúde, enfrentou toda sorte de desafios em busca de vingança contra o algoz que ceifou a vida de seu filho e tramou contra a sua, Iñárritu se vale de uma narrativa vertiginosa que intercala momentos de arrebatadora tensão com sequencias de notável beleza e candura – nitidamente inspiradas em A Árvore da Vida (EUA, 2011) e Amor Pleno (EUA, 2012), de Terrence Mallick, no que tange a forma como a câmera percorre paisagens e locações. 
Neste sentido, de grande importância se revela o oscarizado trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki na medida em que torna cada plano uma pintura viva capaz de realçar a crueza de uma região ainda tão inóspita e de um modo de vida tão truculento. Não a toa todo o perigo e toda violência resultam deveras palpáveis, o que também é fruto, vale lembrar, da excelente edição sonora que permite ao espectador a sensação de pertencer ao universo fílmico – sem apelar para o famigerado recurso da terceira dimensão – além, é claro, das impecáveis interpretações de Tom Hardy e, principalmente, Leonardo DiCaprio que se mostra o ator perfeito para encarnar toda diversidade de sofrimentos desenhada por Iñárritu a partir do romance de Michael Punke.
É bem verdade que O Regresso não goza de ineditismo, sendo até um tanto previsível no decorrer de sua narrativa, porém, há de ser considerado que esse é o tipo de obra em que mais vale compreender e se deliciar com a forma feroz com que o conteúdo é levado para as telas e com as reflexões que este, a despeito de sua certa previsibilidade, consegue fomentar, o que nesse caso abrange o viés virulento com que o homem se relaciona entre si e com o meio ambiente que o abriga.
E é assim, com arrimo nos tradicionais enredos hollywoodianos de luta por sobrevivência em meio a uma natureza primitiva e de busca incessante por vingança, que Iñárritu tem a seu dispor um prato cheio para explorar e congregar aquilo que de melhor e mais marcante há em seus filmes, tarefa essa cumprida sem qualquer desperdício.

Ficha Técnica

Título Original: The Revenant
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith
Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, David Kanter, James W. Skotchdopole, Keith Redmon, Mary Parent, Steve Golin
Elenco: Tom Hardy, Leonardo DiCaprio, Brad Carter, Brendan Fletcher, Dave Burchill, Domhnall Gleeson, Javier Botet, Joshua Burge, Kory Grim, Kristoffer Joner,  Lukas Haas, Paul Anderson, Robert Moloney, Will Poulter
Trilha Sonora: Bryce Dessner, Carsten Nicolai, Ryûichi Sakamoto
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Montagem: Stephen Mirrione
Estreia no Brasil: 04.02.2016
Duração: 151 min.

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