EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 30 de outubro de 2016

Pequeno Segredo



Constrangedor

 “‘Pequeno segredo’ é um oceano de clichês e sentimentalismo. A narrativa é piegas, as imagens são piegas, a banda sonora é piegas, a direção é de uma platitude sem fim.
[...] um filme não se faz com boas intenções. É preciso talento. O diretor David Schurmann tem mais das primeiras que do segundo, infelizmente.
Em seu segundo longa, ele é incapaz de encontrar um enquadramento que não repita cartões-postais ou imagens de TV ou publicidade. [...]
A trama se desenvolve por tempos justapostos, passado e presente. Não é coisa fácil de fazer no cinema. E as soluções encontradas pelo roteiro não são felizes: tudo segue aos solavancos, as situações parecem repetitivas, os personagens se perdem, alguns são apenas espectros, como os irmãos Schurmann”¹.
Irrepreensível, a crítica de Alcino Leite Neto torna árdua a tarefa de acrescentar algo novo aos comentários sobre Pequeno Segredo. Ciente do risco do tropeço, segue a tentativa.
Pequeno Segredo (Brasil, 2015) poderia passar despercebido não fosse sua contestada eleição para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, além das nada modestas declarações do diretor David Schürmann em defesa da obra. Tamanha exposição do trabalho em decorrência de fatores extracampo acabou por torná-lo conhecido país afora, o que, consequentemente, poderá lhe garantir futuros dividendos nas bilheterias. E só.

Constrangedor, o longa-metragem não dispõe de qualidades cinematográficas mínimas para galgar qualquer premiação nem fincar pés na memória cinéfila a não ser pela polêmica supracitada. Neste passo, a produção almeja ser épica, apresentar imagens arrebatadoras e uma narrativa tocante, todavia fracassa em todas essas metas, afinal:
- a direção de fotografia, pretensiosa, tenta a todo custo criar sequências de grande beleza (o que explica o abuso com que tomadas aéreas são utilizadas), porém, resvala na superficialidade na medida em que deixa de demonstrar qualquer assinatura própria para, em contrapartida, optar por uma linguagem nitidamente publicitária mesclada a referências fílmicas que variam entre trabalhos recentes de Terrence Mallick como Árvore da Vida² e Amor Pleno, com pitadas das ideias apresentadas por Petra Costa em Elena³;
- o drama não consegue envolver o espectador, haja vista que a história transcorrida ao longo de tempos diversos acaba prejudicada pela edição que, no afã de articular uma narrativa não linear e manter em sigilo o segredo do título, apresenta cortes mal posicionados que interrompem as tramas justo quando elas começam a despertar interesse; some-se a isso um elenco subaproveitado – Marcello Antony, por exemplo, quase nada fala – quando não sofrível, como é o caso das desastrosas atrizes mirins e do insosso casal interpretado por Maria Flor e Erroll Shand.
A mão pesada de Schürmann, vale dizer, é perceptível não apenas no trato com os atores. Neste diapasão, a direção em sua integralidade sucumbe ao método barato, de diálogos piegas, com que busca causar comoção. Sua toada maniqueísta - vide os aborrecidos e diametralmente opostos papeis de Fionnula Flanagan e Júlia Lemmertz - gera personagens rasos, produtos do claro desejo de sensibilizar o público ante a dramática trajetória da irmã adotiva do cineasta.
Embora nítido o quão comprometedor fora para o filme o envolvimento íntimo de Schürmann com a história retratada, por uma questão de justiça cabe ressaltar que há um momento em que a produção perde o ar novelesco e assume uma postura de cinema de autor, qual seja a sequência em que Jeanne (Maria Flor) se une a um grupo de pessoas que tenta manter viva uma baleia encalhada na praia. Nesse instante metafórico os gestos dizem muito, dispensando as palavras e não a inteligência da plateia que enfim recebe algo não mastigado e realmente tocante. Resta torcer por mais baleias na filmografia de Schürmann.


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1.Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1812668-cliche-pequeno-segredo-e-dos-piores-filmes-brasileiros-recentes.shtml>. Acesso em 01.10.2016.
2. Leia mais sobre A Árvore da Vida em http://setimacritica.blogspot.com.br/2011/09/arvore-da-vidalimite.html.
3.Leia mais sobre Elena em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/08/elena.html

Ficha Técnica


Direção: David Schürmann

Roteiro: David Schürmann, Marcos Bernstein, Victor Atherino

Elenco: Erroll Shand, Fionnula Flanagan, Júlia Lemmertz, Marcello Antony, Maria Flor, Michael Wade, Ryan James

Produção: David Schürmann, João Roni, Vilfredo Schürmann

Fotografia: Inti Briones

Montagem: Gustavo Giani

Trilha Sonora: Antonio Pinto

Estreia: 10/11/2016 (Brasil)

Duração: 107 min.

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