EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 15 de janeiro de 2017

Náufrago



A Ser Valorizado

À época de seu lançamento Náufrago (EUA, 2000) galgou vagas nas disputas pelas premiações mais badaladas da indústria cinematográfica, porém, o reconhecimento nesse sentido acabou aquém do esperado. O tempo curiosamente tem exercido sobre o longa-metragem um duplo efeito qual seja o de ser esquecido ou até desconhecido por novas gerações, a despeito de um amadurecimento que, ao invés de deixá-lo antiquado, apenas solidifica suas qualidades técnicas e torna cada vez mais fascinantes seus efeitos sobre os olhos e sentimentos do público, denotando, por tabela, o talento de Robert Zemeckis enquanto contador de história, além do estupendo trabalho físico e psicológico de Tom Hanks.
Como sabido, durante cerca de 80% de sua duração Náufrago dispõe de um único personagem na tela, o que resulta numa rigorosa ausência de diálogos e de narração em voz over que poderia soar tediosa não fosse a capacidade de Zemeckis em extrair do solitário cotidiano do protagonista elementos relevantes o bastante para agregar importância a cada minuto de sua estadia em uma ilha deserta, daí Celso Sabadin escrever que o cineasta proporciona: “uma descoberta a cada cena, uma envolvente aula de direção cinematográfica [...]Uma prova inconteste de que a grande e verdadeira qualidade do cinema está, acima de tudo, numa história bem contada e não na estressante correria visual que predomina”¹.
Dentro deste contexto, enquanto variação do romance Robinson Crusoé, revela-se magistral a decisão da produção por transformar o personagem Sexta-feira em uma bola de vôlei, estratégia que salienta o estado de carência do náufrago e toca fundo no momento em que este fragilizado, desesperado e com as forças por um fio é levado a se separar de seu ‘parceiro’. Merece também registro a coragem da obra ao não entregar o final feliz almejado pelo protagonista que, numa metáfora visual bastante clara, é deixado ao término sem uma rota determinada a seguir, sem um futuro traçado e sem saber se sua vida um dia voltará aos trilhos. A frustração experimentada pelo personagem aumenta a cumplicidade e solidariedade da plateia, coroando a condução de Zemeckis que, não obstante alguns problemas percebidos durante as sequências iniciais, tão logo inaugurado o segundo ato, já na ilha, mostra os exatos termos necessários a criação da definitiva versão fílmica de Crusoé.
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1.     Disponível em https://www.cineclick.com.br/criticas/naufrago. Acesso em 15.01.17.

Ficha Técnica


Título Original: Cast Away
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: William Broyles Jr.
Elenco: Tom Hanks, Elden Henson, Christopher Noth, Helen Hunt, Lari White, Michael Forest, Nick Searcy, Viveka Davis
Produção: Jack Rapke, Robert Zemeckis, Steve Starkey, Tom Hanks
Fotografia: Don Burgess
Trilha Sonora: Alan Silvestri
Duração: 143 min.

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