EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O Novíssimo Testamento



Contestador, Polêmico e Saboroso

O Novíssimo Testamento (Bélgica/França/Luxemburgo, 2015) prova para eventuais pessimistas que o talento e criatividade do diretor Jaco Van Dormael não ficara restrito ao ótimo e cultuado Mr. Nobody (Canadá, 2009)¹. Com tal comédia, o cineasta mergulha fundo no sarcasmo para, sem medo de parecer herege aos mais impolutos, tratar Deus de uma forma errática, na medida em que Este, segundo o longa-metragem é um Sádico que trata a humanidade como verdadeiro joguete destinado a preencher Seu tempo. Assim, tragédias, catástrofes e pequenos dramas pessoais são delineados por um todo Poderoso pouco Misericordioso, pensamento que, por certo, dever ser por muitos, de modo velado ou público, compartilhado.

Dentro deste contexto, o que torna o trabalho interessante e não um mero ataque a crença cristã é o humor inteligente e ferino que permeia sobretudo seus primeiros trinta minutos. Lamentavelmente, as perspicazes brincadeiras com passagens bíblicas vão aos poucos cedendo espaço para o drama, o que faz a produção perder impulso mas não relevância, já que tal transição de gêneros é feita através de um leque de recursos narrativos manuseado com desenvoltura e competência suficientes, o que inclui as pitadas de surrealismo já manuseadas antes pelo cineasta no citado Mr. Nobody, bem como quebras da quarta parede e outras licenças poéticas visuais que, por vezes, trazem à mente O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França, 2001).
Em meio a suas contestações à figura do Criador, O Novíssimo Testamento apresenta uma edificante mensagem de amor a vida e aquilo e aqueles que a tornam única, viés esse que poderia facilmente soar piegas mas que nas mãos de Jaco van Dormael resulta num conjunto harmonioso, saboroso e imperdível que deixa de ser genial do início ao fim para assim o ser em momentos determinados, opção que talvez seja até correta considerando que a total perfeição pode soar tediosa.
___________________________
1.Leia mais sobre Mr. Nobody em http://www.setimacritica.blogspot.com.br/2010/11/mr-nobody.html.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Le Tout Nouveau Testament
Direção: Jaco Van Dormael
Roteiro: Jaco Van Dormael, Thomas Gunzig
Elenco: Catherine Deneuve, Anna Tenta, Benoît Poelvoorde, Bilal Aya, David Murgia, Didier De Neck, Dominique Abel, François Damiens, Gaspard Pauwels, Johan Heldenbergh, Johan Leysen, Laura Verlinden, Lola Pauwels, Marco Lorenzini, Pili Groyne, Romain Gelin, Serge Larivière, Yolande Moreau
Produção: Jaco van Dormael, Olivier Rausin
Fotografia: Christophe Beaucarne
Montador: Hervé de Luze
Trilha Sonora: An Pierlé
Estreia: 21/01/2016 (Brasil)
Duração: 114 min.

Nenhum comentário:

Postar um comentário