EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 29 de janeiro de 2017

O Homem nas Trevas



O Peso dos Senões

O Homem nas Trevas (EUA, 2016) mostra que, munido de um bom roteiro, Fede Alvarez é capaz de entregar um filme de suspense/horror impecável como há tempos não se vê. Infelizmente esse ainda não é o caso da obra em comento, eis que apesar da inconteste habilidade de Alvarez em criar sequências tensas que de fato brincam com os nervos do espectador, pesa contra o título o script de muitos e consideráveis senões dentre os quais saltam aos olhos:
- o modo insistente com que opta por ser inverossímil, característica, aliás, responsável por abrir sem qualquer sutileza a brecha da desnecessária sequência;
- os clichês e a previsibilidade – surgidos na cola da inverossimilhança – falhas narrativas essas que, aliás, recebem um considerável auxílio do trabalho de montagem que logo na cena de abertura do longa-metragem adianta o que acontecerá próximo ao término, spoiler cuja existência só pode ser justificada pelo desejo, nesse caso atabalhoado, de agradar as impacientes plateias atuais;
- a questionável inversão de valores praticadas na medida em que a maioria dos ladrões que invadem a casa de um veterano de guerra cego é vitimizada ante a truculenta reação deste último; neste diapasão, no afã de ponderar seus atos ilícitos é feita, por exemplo, uma contextualização para a ladra ao passo que o dono da residência, em virtude da traumática perda de uma filha, é transformado em um monstro que não se exime de praticar violência contra a mulher.
Dito isso, a produção pode até acertar ao não tratar o proprietário do imóvel invadido como um santo, porém, erra ao passar a mão na cabeça de alguns bandidos. Um roteiro maduro não facilitaria a vida de ninguém e trataria as personalidades erráticas de todos de maneira igualitária. Seja como for, ante a boa recepção do público, não parece indicado esperar por uma continuação comprometida com a verossimilhança ou com perfis psicológicos burilados, afinal, em time que está ganhando não se mexe.

Ficha Técnica


Título Original: Don't Breathe

Direção: Fede Alvarez

Roteiro: Fede Alvarez, Rodo Sayagues Mendez

Elenco: Brak Little, Christian Zagia, Daniel Zovatto, Dylan Minnette, Jane Levy, Jane May Graves, Jon Donahue, Katia Bokor, Sergej Onopko, Stephen Lang

Produção: J.R. Young, Joseph Drake, Nathan Kahane, Sam Raimi

Fotografia: Pedro Luque

Montador: Gardner Gould

Trilha Sonora: Roque Baños

Estreia: 08/09/2016 (Brasil)

Duração: 88 min.

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