EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 3 de dezembro de 2011

Amanhã Nunca Mais


Passo Maior que as Pernas

Amanhã Nunca Mais (Brasil, 2011) é dotado de inúmeras referências, dentre as quais saltam aos olhos: a cena de abertura ao estilo Um Dia de Fúria (EUA, 1993), a trama de percalços ao longo de uma noite também vista em Depois de Horas (EUA, 1985) e o protagonista passivo que pressionado por situações extraordinárias explode em fúria e violência tal como o personagem de Dustin Hoffman em Sob o Domínio do Medo (EUA, 1971).
O problema, dentro deste contexto, reside na falta de personalidade própria do título brasileiro que, por sua vez, acaba perdendo a oportunidade de ser um interessante estudo sobre comportamentos alterados pelo sufocamento de uma metrópole para, assim, se contentar com a apresentação de um festival de tipos caricatos em meio a situações absurdas.
Não fosse o bastante, o diretor Tadeu Jungle opta por entregar tudo mastigado ao espectador - ignorando, portanto, palavras como síntese e sugestão¹ - através do esteio de uma trilha sonora insistentemente moldada para conduzir as reações do público, o que, convenhamos, é lamentável, visto que apesar de contar com efeitos sonoros extremamente bem editados, a música tão presente em cada cena serva apenas para tornar a experiência um enfado.
Dito isso, embora não se trate, ainda bem, de um filme de longa duração, o que fica é a impressão de que Amanhã Nunca Mais, face o teor repetitivo de seu enredo, alcançaria um melhor rendimento caso se limitasse ao formato de um curta-metragem. Eis o típico caso em que o passo dado fora maior do que as pernas.
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1.     Para não soar injusto, cabe dizer que uma sugestão é sim feita, e bem, qual seja a exposição da situação profissional/financeira do personagem principal, isto é, do médico anestesista que mesmo trabalhando dia e noite em plantões consecutivos ainda não consegue lograr um status econômico privilegiado; afinal, seu automóvel é popular, seu passeio com a família é para um balneário freqüentado por classes B e C e sua casa suburbana e apertada por certo não comporta as expectativas suas e de sua mulher. Tal realidade é mostrada nem sempre com sutileza, mas, ao se apoiar tão somente na força das imagens e nos sentidos do espectador, revela o quanto o trabalho de Tadeu Jungle seria melhor se ousasse mais nesse sentido.

COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica
Direção: Tadeu Jungle
Elenco:Lázaro Ramos (Walter)Maria Luisa Mendonça (Miriam)Fernanda Machado (Solange)Milhem Cortaz (Geraldo)Luis Miranda (Motoboy)Paula Braun (Renata)Vic Militello (Dona Olga)Carlos Meceni (Cirurgião-chefe)Imara Reis, Arthur Kohl
Música: André Abujamra e Márcio Nigro
Fotografia: Ricardo Della Rosa
Edição: Estevan Santos e Jon Kadosca
Estreia: 11 de Novembro de 2011
Duração: 78 min.

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