EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Film Socialisme


Godard: O Avesso da Obsolescência

Em Film Socialisme (França/Suíça 2010) Jean-Luc Godard utiliza a tecnologia digital para compor algo que mais parece uma versão estendida de um trabalho de vídeo arte do que um exemplo de produção cinematográfica propriamente dita. Neste sentido, o diretor francês continua escrevendo com a câmera, leia-se: radicalizando quanto a forma imagética em primazia do texto. Por isso, a narrativa inexiste e os personagens são relegados a mera função discursiva, isto é, de leitura das linhas do ‘roteiro’ – o que explica porque atores aparecem quase que sempre com seus rostos envoltos em penumbra.
Não fosse o bastante, Godard:
·   pratica uma espontânea mutilação de seu longa-metragem ao impedir a atribuição de legendas integrais para as narrações e diálogos falados em francês e alemão, o que revela uma anárquica intenção de tornar o filme, sob o aspecto da lingüística, uma verdadeira torre de Babel ou até, talvez, um utópico desejo de comunicação universal capaz de extravasar as fronteiras da língua - hipótese essa, convenhamos, menos provável face o caráter iconoclasta do artista.
·   como de costume, abre mão de uma conexão cristalina entre as partes, obrigando o espectador a primeiro intelectualizar acerca do que é mostrado para, em seguida, estabelecer uma junção lógica e/ou sensorial do material para, assim, se for o caso, travar uma relação emocional com a obra.
Quanto ao conteúdo de suas idéias, Godard pode, em tempos tão cínicos, parecer datado para alguns ou, de maneira contrária, pode para outros soar como uma ainda relevante voz de protesto contra instituições e convenções de todas as espécies. De qualquer forma, compreendendo/concordando ou não, (com) aquilo que fora por ele filmado, é inconteste que o tempo não serviu para torná-lo obsoleto, uma vez que mesmo aos 80 anos de idade o cineasta permanece provocando e gerando polêmica acerca da natureza e da função do cinema, o que, por certo, constitui um grande préstimo contra o engessamento da atividade cinematográfica.
COTAÇÃO: ۞۞۞
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Jean-Luc Godard
Produção: Ruth Waldburger
Fotografia: Fabrice Aragno e Paul Grivas
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 101 min.

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