EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 27 de março de 2013

Lumière e Companhia




Muita Homenagem e Pouca História

Um projeto beneficente chamado Playing for Change reúne músicos de todos os continentes para a execução de clássicos do cancioneiro pop. Neste contexto, cada artista toca separadamente seu instrumento no respectivo local de residência para que adiante sons e imagens sejam editados em estúdio/ilha de edição a fim de um posterior lançamento em CD e DVD.
Dentro deste contexto, Lumière e Companhia (Dinamarca/Espanha/França/Suécia, 1995) representa uma espécie de versão anterior e cinematográfica da ideia na medida em que convoca quarenta cineastas de diversas nacionalidades para, no ano do centenário do cinema, criarem filmes via cinematógrafo e com um modus operandi semelhante ao dos irmãos Lumière em 1895.
Em sendo homenagem a uma “invenção” francesa, há um compreensível predomínio de europeus dentre os cineastas convidados, no que se incluem, por exemplo, os franceses Jacques Rivette e Claude Lelouch, o austríaco Michael Haneké, os gregos Costa-Gravas e Theodoros Anegelopoulos, o alemão Win Wenders, a norueguesa Liv Ullman, o catalão Bigas Luna, o belga Jaco Van Dormael e os britânicos Peter Greenaway e John Boorman. Já entre os não europeus figuram o iraniano Abbas Kiarostami, o chinês Zhang Ymou, os norte-americanos James Ivory, David Lynch, Spike Lee e Arthur Penn, por exemplo. 

Em meio a tal contingente alguns respeitam piamente as condições em que filmavam os Lumière, leia-se sem movimentação de câmera nem cortes, e entregam trabalhos fieis a proposta, porém, pouco inspirados, como é o caso dos curtas de Spike Lee, Jaco Van Dormael, Liv Ullmann – que acaba desperdiçando a presença em tela do renomado diretor de fotografia Sven Nikvyst – bem como da realização de Win Wenders - que deixa a originalidade de lado para apenas fazer referência a seu Asas do Desejo.
 De modo inverso, dentre os trabalhos submissos as regras, mas dignos de aplausos destacam-se as sequências de John Boorman – o qual se vale de sua presença nos bastidores da filmagem do longa-metragem Michel Collins, de Neil Jordan, e da participação dos atores Liam Neeson, Aidan Quinn e Stephen Rea, para compor um trabalho metalinguístico que ainda flerta com o conceito da quebra da quarta parede -, Zhang Ymou - que utilizando como locação a muralha da China entrega um dos mais divertidos segmentos do documentário – e Helma Sanders – cujo mérito fora o de lançar mão da luz, com esmero, para, metaforicamente, homenagear o iluminador Louis Cochet.
Por seu turno, dentre os rebeldes que quebram os paradigmas da não utilização de cortes e de movimentos estão, por exemplo, Abbas Kiarostammi, David Lynch e Peter Greenaway, os dois herméticos como de costume, e Gabriel Axel responsável pela realização do melhor dentre todos os travellings feitos com o cinematógrafo.
Ante tantas minúcias e peculiaridades o documentário inevitavelmente acaba se direcionando para os já iniciados nos assuntos da sétima arte, já que estes, em decorrência do conhecimento prévio acumulado sobre as trajetórias e filmografias dos diretores, tem mais condições de se deliciar com as incursões desses artistas pela manipulação do cinematógrafo. Concomitantemente, entretanto, o mesmo público, exigente, poderá se incomodar não só com a irregularidade característica de compilações como essa, mas, sobretudo, com a deliberada ausência de um olhar sobre o aspecto histórico, afinal, o filme reverencia o cinematógrafo sem fazer qualquer menção ao longo processo de invenções que nele culminaram e que fora iniciado a partir das câmeras escuras, depois com o registro fotográfico de Joseph Niépce, passando ao daguerreótipo de Louis Daguerre e, em seguida, para as primeiras tentativas de emprego de movimento a imagem vistas nos nicklodeons e já por fim nos experimentos dos irmãos Skaladanowsky que foram freados pela chegada do instrumento criado pelos irmãos Lumière.
A história, em se tratando do documentário ora analisado, cedeu lugar a pura reverência fetichista. Por certo, a homenagem seria mais completa se ao invés de perguntas tolas feitas aos cineastas fosse deles extraído seus conhecimentos sobre a história do nascimento do cinema.

FICHA TÉCNICA

Título Original:  Lumière et Compagnie
Direção: Theodoros Angelopoulos, Vicente Aranda, John Boorman, Youssef Chahine, Alain Corneau, Costa-Gavras, Raymond Depardon, Francis Girod, Peter Greenaway, Lasse Hallström, Hugh Hudson, Gaston Kaboré, Abbas Kiarostami, Cédric Klapisch, Andrei Konchalovsky, Spike Lee, Claude Lelouch, Bigas Luna, Sarah Moon, Arthur Penn, Lucian Pintilie, Helma Sanders-Brahms, Jerry Schatzberg, Nadine Trintignant, Fernando Trueba, Liv Ullmann, Jaco van Dormael, Régis Wargnier, Wim Wenders, Yoshishige Yoshida, Zhang Yimou, Merzak Allouache, Gabriel Axel, Michael Haneke, James Ivory, Patrice Leconte, David Lynch, Ismail Merchant, Claude Miller, Idrissa Ouedraogo, Jacques Rivette
Produção: Neal Edelstein, Fabienne Servan-Schreiber, Søren Stærmose
Roteiro: Philippe Poulet (ideia original)
Fotografia: Didier Ferry, Frédéric LeClair, Sarah Moon, Philippe Poulet
Montagem: Timothy Miller, Roger Ikhlef
Direção de Arte: Anne Andreu
Trilha Sonora: Jean-Jacques Lemètre
Estúdio: Cinétévé, La Sept-Arte, Igeldo Komunikazioa, Søren Stærmose AB, Canal+, Musée du Cinéma de Lyon
Duração: 88 min.

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