EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 9 de março de 2013

Os Palhaços



Imaginário Felliniano

Ao discorrer sobre Federico Fellini, Gilles Deleuze conclui que o cineasta “alcança a confusão desejada do real e do espetáculo, negando a heterogeneidade dos dois mundos, suprimindo não somente a distância, mas a própria distinção do espectador e do espetáculo”¹.
Tal pensamento, vale dizer, adequa-se com precisão sobre a análise de Os Palhaços (Itália/França, 1971) tendo em vista a originalíssima forma com que o italiano mescla as linguagens ficcional e documental. Neste sentido, a obra não chega a configurar um exemplo de mockumentary uma vez que se debruça sobre seres reais, porém, uma vez que a encenação dos planos não é em momento algum mascarada², nítida se mostra a intenção de apresentar um trabalho metalinguístico que, acima de qualquer rótulo, aborde situações verídicas permeadas por reminiscências próprias do diretor - o que acaba por agregar um tom ficcional a obra².
Dentro deste contexto, considerando o estilo muito próprio – ou felliniano – com que o artista retratou personagens pitorescos ao longo de toda sua filmografia, é correta a impressão de Nathalia Rech ao afirmar que “para Fellini, sair de casa já é um circo”³, o que explica um pouco do fascínio daquele sobre o mundo circense, bem como sua angústia perante um tempo que deu as costas para tal manifestação cultural, situação essa materializada na fala de um antigo palhaço que assim lamenta: “Os palhaços não desapareceram, as pessoas que não sabem mais rir”.
Ao resgatar uma época esquecida que lhe é muito cara, Fellini não só presta uma bela e criativa homenagem aos artistas do picadeiro como também reflete sobre o futuro da arte e da tradição. E tudo isso em meros 90 minutos.
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1.     A Imagem-Tempo. Ed. Brasiliense, 1990.
2.  Os filmes de Fellini trazem sim rememorações de sua vida e trajetória, mas não se pode afirmar que estas rememorações sejam totalmente verdadeiras, afinal, o próprio artista não hesitava em se classificar como: “um grande mentiroso”.
3.     FONTE: http://odivago.blogspot.com.br/2009/08/fellinianas-frederico-e-o-circo.html. Acesso em 05.03.13

FICHA TÉCNICA
Direção: Federico Fellini
Produção: Federico Fellini, Ugo Guerra, Elio Scardamaglia
Roteiro: Bernardino Zapponi
Elenco: Anita Ekberg, Federico Fellini, Annie Fratellini, Gigi Reder, Charlie Rivel, Carlo Rizzo, Bill Scott, Alvaro Vitali, Pierre Étaix
Fotografia: Dario Di Palma                                        Trilha Sonora: Nino Rota
Duração: 91 min.

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