EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 28 de abril de 2013



Contundente e Bem Humorado

Anos 80. A América do Sul vive sob a sombra da ditadura. No Chile Augusto Pinochet determina, como forma de legitimar seu governo ante a opinião internacional, a realização de plebiscito para decidir sobre sua permanência ou não no poder¹.
A princípio esse seria um processo eleitoral de vencedor predeterminado face a numerosa abstenção de votos que atenderia aos interesses dos militares. O possível não comparecimento da população as urnas, neste sentido, se deveria tanto ao temor por represálias – as execuções e desaparecimentos de oposicionistas era uma constante – quanto pelo comodismo acarretado em alguns pela falsa impressão de estabilidade econômica pregada pela Administração Pública².

A reversão desse amargo quadro se deu a partir de um ousado conceito publicitário criado para alertar o povo quanto a necessidade de votar contra Pinochet. Dando as costas para o rancor panfletário de muitos que se opunham a opressão, uma equipe de publicitários preferiu apostar num produto diferente e inusitado a ser vendido: um futuro mais alegre. Aparentemente simples, a ideia, num primeiro momento, desagradara as lideranças por trás da campanha pelo ‘não’, mas, de maneira inversa, fora aos poucos conquistando a população e surpreendendo os governistas que, num boçal exercício de subestimação, ignoraram o quão politizado o povo de seu país poderia se mostrar.
No (Chile/França/EUA, 2012) aborda esse recente trecho da história chilena sob a curiosa ótica dos publicitários envolvidos com o plebiscito. Dito isso, o que se vê é uma interessantíssima aula de publicidade ilustrada por exemplos tanto dos muitos métodos de persuasão utilizados por esta, quanto das conexões nem sempre éticas de profissionais da área em meio a política. Neste passo, tal qual a alegria estimulada pelo personagem de Gael Garcia Bernal em seus anúncios anti-Pinochet, o diretor Pablo Larraín também emprega considerável dose de alto astral a seu filme, tornando-lhe, por conseguinte, envolvente, irônico e articulado, afinal, não é porque se esquiva de uma toada sisuda que o longa-metragem deixa de ser contundente quanto a sua postura política – aspecto esse, aliás, que o assemelha aos melhores títulos de Costa-Gravas.
Logicamente a narrativa assume o lado dos opositores ao regime, contudo abre espaço também para os militares e, o que é melhor, sem qualquer tipificação estereotipada. Cada grupo é abordado da forma mais natural possível, destacando-se apenas a diferença existente entre os seus respectivos objetivos, eis que enquanto uns visavam interesses próprios outros pensavam no bem estar da coletividade. Essa naturalidade, vale dizer, é refletida no caráter documental da mise-en-scène sobretudo no que tange a fotografia marcada pelo predominante uso de câmera na mão e pelo formato de vídeo utilizado que remete ao padrão de imagem da época³. Aliás, No só não se torna um documentário encenado porque Larraín não esquece de também manejar a ficção, arranjando, assim, tempo para analisar seu protagonista (e respectivo antagonista) no que tange sua intimidade e o modo como o trabalho por ele cumprido afeta sua vida familiar e profissional – isso porque neste último quesito resta nítido o quão prosaicas se tornam todas as missões enfrentadas após o cumprimento de uma tarefa tão importante e grandiosa que fora convocar os chilenos para civicamente depor Pinochet.
Como visto, No percorre muitos caminhos sem jamais descarrilar. Neste sentido, é fascinante como tudo nele funciona de maneira precisa⁴, o que faz da obra, numa justa e simples definição, um filmaço.
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1.     Pinochet chegara ao poder através de um golpe militar arquitetado contra o governo de Salvador Allende, trecho esse da história que fora encenado no drama Chove Sobre Santiago dirigido, em 1976, por Helvio Soto e protagonizado por Jean-Louis Trintignant.
2.   Segundo Alfredo Castro, ator que interpreta o rival do personagem de Gael Garcia Bernal em No: “O Chile está melhor para algumas pessoas, que eram ricas e estão mais ricas. Mas os pobres estão cada vez mais pobres. Essa diferença continua abismal. O plano de Pinochet era acabar com os políticos e com a ideologia no Chile, e ele conseguiu” (FONTE: Revista Preview. Ano 3. ed. 39. São Paulo: Sampa, Dezembro de 2012. p.62).
3.    O filme foi rodado todo em videotape, mais precisamente, no formato U-matic. De acordo com Pablo Larrain a intenção era fundir imagens de arquivo e encenadas para que as pessoas não notassem a diferença entre elas. Para tanto “Vinte câmeras quebradas foram compradas em Utah e transformadas em quatro câmeras de vídeo por um engenheiro de Hollywood” (FONTE: Op. Cit. p. 63).
4.     No que se inclui, cabe destacar, o eficiente trabalho de montagem que utiliza com sapiência as preciosas imagens televisivas originais.

FICHA TÉCNICA

Direção: Pablo Larraín
Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larrapin, Pablo Larraín
Roteiro: Pedro Peirano
Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Marcial Tagle, Diego Muñoz, Manuela Oyarzún, Jaime Vadell
Estreia no Brasil: 21 de Dezembro de 2012
Duração: 110 min.

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