EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 21 de setembro de 2013

Belém aos 80



De Boas Intenções...

Por mais óbvio que possa parecer, vale a pena lembrar: a análise crítica de um filme requer o devido afastamento entre razão e emoção. Dito isso, no que tange a avaliação do documentário Belém aos 80 (Brasil, 2007) é impossível ignorar que suas boníssimas intenções não superam as limitações e deficiências presenciadas ao longo de seus cento e sete minutos, senão vejamos.

A importância envolta no registro da atividade cultural paraense é inquestionável seja para fins de memória e valorização de seus artistas e obras, seja como instrumento de informação e formação das gerações futuras. Neste diapasão, o longa-metragem dirigido por Alan Kardek Guimarães, com esteio em argumento de Januário Guedes e Celso Eluan, elege como tema os diversos movimentos artísticos que pulularam na cidade das mangueiras ao longo da década de 80, no que se incluem produções literárias, fotográficas, musicais, teatrais e cinematográfica, além de experimentações vistas no campo das artes plásticas e organizações populares voltadas para festas e blocos de rua. O problema, dentro deste contexto, é que não há uma separação, digamos, didática, entre cada uma dessas vertentes e, o que é pior, certos eventos são narrados sem qualquer preocupação com explicações pretéritas, o que, convenhamos, se configura como um equívoco visto que nenhum espectador é obrigado a possuir conhecimento prévio sobre os assuntos levantados. Por isso, surge naturalmente a dúvida: será esse um trabalho feito exclusivamente para o deleite daqueles que protagonizaram as histórias contadas ou será, de modo contrário, apenas o caso de uma tentativa frustrada de comunicação coletiva?
Não bastassem tais problemas, a pretensa conexão entre o processo de redemocratização implantado no país e o surgimento dos levantes artísticos belemenses soa pouco convincente, eis que no lugar da conotação política representada pelo fim do governo militar e da ditadura, mais parece que era simplesmente na boemia que se concentrava o estímulo e a essência de muitas das criações abordadas. Para piorar, o amadorismo de certas tomadas sobrepõe qualquer afã vanguardista da filmagem – isso porque existe uma diferença abismal entre o que se pode chamar de estilo e o que na verdade é tosco. Desta feita, a inclusão no plano/quadro de microfones e câmeras e a alternância entre formatos de vídeo numa mesma sequência são exemplos de falhas grosseiras que não se justificam tão somente por se tratar de linguagem documental, não havendo, portanto, conotação naturalista capaz de camuflar aquilo que, na verdade, é amador ou, simplesmente, fruto de mau gosto.
Ante o exposto, Belém aos 80 titubeia no conteúdo e tropeça quanto a forma, desperdiçando, assim, assuntos riquíssimos da recente história cultural paraense. Exemplo dessa fraqueza, por fim, reside no lamentável pequeno espaço dado para a cena rocker surgida na cidade àquela época. Assim, dentre as tantas bandas citadas pela produção apenas uma, o Álibi de Orfeu, recebe a atenção devida – em detrimento de outros importantes grupos como Stress e Mosaico de Ravena -, ficando, por conseguinte, a impressão de que um outro recorte neste sentido poderia até render um novo filme. Quem sabe um dia? 

FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Alan Kardec Guimarães
Argumento: Januário Guedes e Celson Eluan
Fotografia: Diógenes de Carvalho Leal
Duração:107 min.


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