EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ferrugem e Osso



O Amor nos Tempos do Estranho

Ferrugem e Osso (França/Bélgica, 2012) é resultado do trabalho de adaptação de contos do autor Craig Davidson, assunto esse sobre o qual o cineasta Jacques Audiard comenta:
“No original há apenas situações, atmosferas, não há história de amor, o acidente é com um rapaz, [a adaptação] não é ao pé da letra, embora recrie a atmosfera e seja fiel a muitos dos acontecimentos. Nunca imaginaria uma realidade que envolvesse um parque aquático, um boxeador e uma mulher sem pernas”¹.
Essa disparidade de elementos narrativos - aos quais se somam, ainda, crise econômica, disfunção familiar e instalação de câmeras clandestinas - é o que mais chama a atenção no longa-metragem de Audiard, isso porque a produção abraça toda essa gama de temas sem precisar recorrer ao formato do filme coral e seus inúmeros personagens. Ao manter o foco, de maneira inversa, sobre o casal de protagonistas e alguns poucos coadjuvantes, o roteiro de Audiard apresenta uma incrível capacidade de coesão que torna plenamente verossímil o drama narrado - por mais estranho que ele pareça...
Aliás, a estranheza é uma bem-vinda característica de Ferrugem e Osso na medida em que reflete o quão esquisitas ou diferentes também se tornaram as relações humanas. E é aí que reside a atualidade da obra, visto que, por exemplo, a ambiguidade de seu personagem principal, qual seja um homem bruto, mas também solidário, negligente, porém, zeloso, se confunde, com a dubiedade dos relacionamentos atuais.
É claro que uma proposta complexa como essa não seria vitoriosa sem a presença de atores capazes de alcançar tais notas. Para tanto, Marion Cotillard brilha no papel mais desafiador de sua carreira desde a encarnação de Edith Piaf e, do outro lado, Mathias Schoenaerts impressiona pelo troglodita e pelo poço de gentileza que é em cena. Na regência do espetáculo Jacques Audiard, por seu turno, é um prudente observador que evita psicologismos para não tomar partido nem tecer julgamentos. A ele não interessa saber se entre o casal há amor ou sexo, compromisso ou diversão. Todos são bons e também maus; todos são vítimas e principalmente cúmplices, assim como tudo o que é estranho também, é belo². No universo de Ferrugem e Osso aquilo que é esteticamente agradável ganha contornos cruéis, enquanto as coisas mais comumente reprováveis ganham surpreendentes requintes de beleza – que o diga Katy Perry e seu hit Firework³.
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1.FONTE: Revista Preview. Ano 3. ed. 40. São Paulo: Sampa, Janeiro de 2013. p. 21.
2.Vide as cenas de sexo ímpares cuja atmosfera lírica Beto Brant tentou anteriormente sem êxito alcançar em Crime Delicado.
3.“’Jamais teria escolhido essa canção,mas era a que tocavam no show’ contou Jacques Audiard, reclamando do preço pago pelos direitos autorais” (Op. Cit. p. 21).

FICHA TÉCNICA

Título Original: De Rouille Et D’os

Direção : Jacques Audiard

Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain, baseado em livro de Craig Davidson

Elenco: Marion Cotillard, Mathias Schoenaerts, Céline Sallete, Yannick Choirat, Jean-Michel Correia, Mourad Frarema, Bouli Lanners, Corinne Masiero, Armand Verdure

Música: Alexandre Desplat                 Edição: Juliette Welfling

Estreia no Brasil: 03.05.13             Estreia Mundial: 17.05.12

Duração: 122 min.

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