EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 19 de outubro de 2013

Mamonas pra Sempre



Sobretudo Incompleto

Mamonas pra Sempre (Brasil, 2009) é o tipo de documentário que funciona enquanto homenagem mas que pouco contribui para revelar quem eram os verdadeiros homens por trás dos personagens nonsense por eles encarnados. Não fosse pelos primeiros quinze minutos dedicados a história do grupo enquanto banda Utopia e a trechos do depoimento do produtor musical Rick Bonadio, o filme pouco se diferenciaria da tonelada de matérias televisivas já feitas sobre os músicos. 
                  Dentro deste contexto, Bonadio é o único que ousa falar sobre as reais personalidades de cada membro da banda, bem como a meter o dedo na ferida comentando o quão incômoda era a constante presença nos bastidores de uma certa namorada do vocalista Dinho. Considerando, porém, que o relato neste sentido advém de um único indivíduo, fica a sensação de que mais pessoas deveriam ter sido entrevistadas para a composição de um mosaico mais abrangente de opiniões não apenas sobre os rockeiros circenses como também sobre a importância ou não histórica do grupo e de suas baboseiras para o cenário musical brasileiro da primeira metade dos anos 90. Ademais, o foco – até certo ponto natural – sobre a figura do carismático Dinho soa um tanto exacerbado na medida em que, exceto por informações básicas acerca dos respectivos papeis no grupo, pouco se investiga sobre os demais mamonas.

Tanta incompletude, vale dizer, alcança seu ápice na abordagem da tragédia que vitimou os músicos. Decidido a não ser sensacionalista, como tantos veículos de comunicação foram a época do acidente de avião que pôs fim a existência terrena daqueles artistas, o diretor Claudio Khans opta por se concentrar na vida e a lançar um olhar apenas breve sobre  o sinistro já citado. Sem dúvida o cineasta não pode ser criticado por falta de posicionamento, contudo, sua decisão acaba se mostrando radical ao passo em que não fornece qualquer dado, por exemplo,  técnico sobre os problemas que levaram a queda do jatinho no qual viajava a banda. Pelo visto, Khans parte do pressuposto de que os espectadores já foram por demais bombardeados com detalhes dessa espécie, esquecendo, em contrapartida que seu trabalho será uma eterna fonte de pesquisa para futuras gerações, daí porque privar o documentário de uma análise apurada sobre um evento tão extraordinário caracteriza em definitivo a obra como um produto sobretudo incompleto, o que, sem exageros, representa uma falha praticamente teratológica em termos de linguagem documental.

Ficha Técnica

Direção: Claudio Khans
Estreia: 17.06.2011
Duração: 84 min.

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