EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street



A Jovialidade de Scorsese

Histórias de ascensão e queda são comuns na filmografia de Martin Scorsese, por isso, chama atenção a forma inteligente porque diferenciada, farsesca como o mestre conduz a narrativa de O Lobo de Wall Street (EUA, 2013). Fugindo de qualquer traço de repetição ou de mesmice, o diretor entrega A Comédia que faltava em sua obra – sim, o monótono O Rei da Comédia (EUA/1981) não é representativo dentro deste contexto – além de revelar uma jovialidade que muitos artistas já passados dos 60, 70 anos de idade não dispõem.
Ágil, irônico e muitíssimo engraçado o longa-metragem envereda por assuntos duros como dependência química e a selva de pedras que é o mercado da bolsa de valores sem perder o bom humor, o que pode até significar uma ótica equivocada para alguns mas que, em contrapartida, enche os olhos de quem compreende que o produto artístico é uma representação e não obrigatoriamente uma cópia da realidade.
Além de impecável em quesitos técnicos como fotografia, direção de arte e edição, o filme ainda apresenta um elenco que dá o sangue para melhor aproveitar a oportunidade de trabalhar sob a batuta de Scorsese. Assim, em papeis menores Mattew McConaughey – superando-se a cada dia – e Jonah Hill impressionam e arrancam risadas sem esforço, enquanto Leonardo DiCaprio apresenta a superlativa atuação de sua carreira, portando-se como um colosso ora furioso ora pacato ora alucinado².
Com efeito, mesmo que próximo ao término O Lobo de Wall Street altere sua toada frenética por um tom mais sisudo nada, entretanto, macula a produção com a pecha da caretice, até porque não há qualquer intenção em adequar a realização à faixas etárias mais jovens. Explique-se: Scorsese não teme em restringir seu público e os resultados da bilheteria e abarrota o filme com cenas de sexo, nu frontal e consumo de drogas, além de não se incomodar em ultrapassar, bastante, a duração padrão, em termos de comédia, das duas horas, razão pela qual quando diminui a velocidade da narrativa já perto da sua conclusão o cineasta visa tão somente manter a misé-èn-scene coerente ao estado de espírito do protagonista e não tornar ou manter o produto agradável ao público.
Desta feita, O Lobo de Wall Street é mais um excelente título de um diretor dos mais apaixonados pelo ofício³ que há anos mantém um altíssimo nível de qualidade em sua trajetória cinematográfica. Aliás, alguém lembra o último filme de Scorsese que não fora, no mínimo, ótimo? O Rei da Comédia? Gangues de Nova York (EUA/2002)? O Aviador (EUA/2004) ? São pouquíssimas as opções.
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1.     Vide os casos de Touro Indomável, Os Bons Companheiros e, em menor escala, de A Invenção de Hugo Cabret.
2.     Neste sentido, contando apenas com poucos metros de chão e alguns degraus DiCaprio presenteia o cinema com a, sem exagero, antológica sequência em que drogado rasteja até seu automóvel.
3.     Em O Lobo de Wall Street Scorcese novamente confessa sua cinefilia tal qual no anterior A Invenção de Hugo Cabret e, desta vez, o faz seja com citações sutis a obras como Freaks e Rocco e seus Irmãos seja com a utilização de outros cineastas no elenco quais sejam Rob Reiner, Spike Jonze e Jon Favreau.

Ficha Técnica


Título Original: The Wolf of Wall Street

Direção: Martin Scorsese

Produção: Martin Scorsese, Leonardo DiCaprio, Riza Aziz, Emma Koskoff, Joey McFarland

Roteiro: Terence Winter (Baseado em livro de Jordan Belfort)

Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Mattew McConaughey, Rob Reiner, Jon Favreau, Spike Jonze, Jean Dujardin

Edição: Thelma Schoonmaker                       Fotografia: Rodrigo Prieto

Estreia: 25.12.2013                                          Estreia no Brasil: 24.01.14
Duração: 179 min.

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