EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tatuagem / Dzi Croquettes



Quando a Ficção Não Acompanha a Realidade

                    Embora inspirado no grupo de teatro Vivencial que, na segunda metade da década de 1970, “atraía intelectuais e artistas para a sua plateia em um cabaré de Olinda, Pernambuco”¹ Tatuagem (Brasil, 2013) é, convenhamos, uma versão ficcional do documentário Dzi Croquettes (Brasil, 2010) cuja estrutura, por seu turno, é basicamente dividida em três pisos, quais sejam a formação e difusão do grupo teatral, seu deslocamento geográfico em meio a ditadura dos anos de chumbo e o fim seja da trupe seja da maioria dos indivíduos que a compunham. Dentro deste contexto, Tatuagem transita entre as duas primeiras partes do documentário, concentrando-se, portanto, no aspecto dramatúrgico da atividade dos personagens bem como em suas relações afetivas.
                       Com efeito, assim como o protagonista Clécio (Irandhir Santos) se esforça para não estabelecer o conflito perante o amado e seus respectivos atos de infidelidade, o longa-metragem também evita explorar a fundo questões espinhosas como a realidade ditatorial e opressora do período, o que deixa uma sensação de incompletude a um trabalho que poderia ser mais abrangente em suas discussões.
                     Na verdade em certos momentos Tatuagem até ameaça ser apoteótico no que atine o choque entre o comportamento de uma minoria e os padrões impostos por um regime, porém, infelizmente, as soluções nesse sentido apresentadas pela narrativa são sempre anticlimáticas e, por conseguinte, frustrantes.  Assim, o foco da estreia de Hilton Lacerda enquanto cineasta se restringe a:
- reproduzir shows andróginos e permeados de corpos (semi)nus, tal qual faziam os dzi croquettes, missão essa, vale dizer,  cumprida com bastante esmero graças a ótima direção de arte e a Irandhir Santos em desempenho brilhante, como de costume;
- abordar uma história de amor entre dois homens – enredo esse que, por si só, nada possui de inovador.
                    Ao ser cauteloso ante o contexto histórico brasileiro daqueles anos Tatuagem desperdiça o fator político que seria seu grande trunfo, ao contrário de Dzi Croquettes que logra o êxito de ocupar um lugar de destaque na memória justamente por demonstrar o que significava ousar enquanto artista em tempos de censura. A ficção, desta vez, não acompanhou a realidade a contento.
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1. FÉLIX, Renato in PREVIEW. Ed. 50. São Paulo: Sampa, Novembro de 2013. p. 48.

Ficha Técnica – Tatuagem 
Direção e Roteiro: Hilton Lacerda
Produção: João Vieira Jr., Chico Ribeiro e Ofir Figueiredo
Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia, Ariclenes Barroso, Sylvia Prado, Nash Laila, Sílvio Restiffe, Arthur Canavarro, Clébia Souza, Erivaldo Oliveira, Mariah Texeira, Diego Salvador, Everton Gomes,Rafael Guedes,Jennyfer Caldas,Iara Campos
Fotografia: Ivo Lopes Araújo                           Música: DJ Dolores
Montagem: Mair Tavares                                Direção de Arte: Renata Pinheiro
Figurino: Chris Garrido                                    Maquiagem: Donna Meirelles
Estreia: 15.11.2013
Duração: 105 min.

Ficha Técnica – Dzi Croquettes
Direção: Tatiana Issa, Raphael Alvarez
Estreia: 16.07.2010
Duração: 110 min.

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